HORA DE ALMOÇO
José Antônio Cavalcanti O amontoado humano continuava a aumentar e todos permaneciam ignorando o motivo de tamanha celeuma. Ninguém informava a ninguém o que havia colocado aquela massa ordeira e trabalhadora em tamanha balbúrdia.
Os punguistas passaram a agir livremente. Os bandos de pivetes, depois de uma rápida e objetiva reunião, estabeleceram a área de atuação de cada um, a fim de evitar atritos. Incontáveis vendedores ambulantes afluíram ao local. Pipoqueiros, sorveteiros, baleiros e outros eiros infestavam as calçadas, as ruas e as praças, provocando sérias escaramuças em torno dos pontos de venda. Até mesmo o glorioso Corpo de Bombeiros deu o ar de sua graça, comparecendo apressado e barulhento, jogando mulheres e criancinhas ao solo para logo descobrir-se desnecessário.
Do alto dos edifícios os funcionários dos escritórios acenavam eufóricos, divertindo-se a valer. Não demorou muito e começaram a jogar bolinhas de papel, sacos plásticos preenchidos com urina, rolos de papel higiênico, fora outros objetos não identificados.
A multidão que se formara ao longo daqueles quarteirões ria às escâncaras; alguns seguravam a barriga com as mãos, quase explodindo. Naturalmente, quando “acertados”, ficavam fulos, xingavam, esperneavam ensandecidos, faziam gestos obscenos.
Porém a diversão melhorou consideravelmente quando começaram a atirar gatos em cima da multidão. Em poucos minutos, não havia um só gatinho no Passeio Público ou no Campo de Santana. Os mensageiros foram expressamente encarregados de recolhê-los, o que executaram com impagável perfeição.
Fartamente municiados, os datilógrafos e auxiliares de escritório começaram a lançar os felinos dos andares superiores dos prédios. Note-se que muitos bichanos foram lamentavelmente inutilizados porque o povo, ávido por cooperar, participou também da caçada aos bichinhos, mas tal era o seu ímpeto que muitos animais ficaram divididos em pedaços na mão de caçadores inexperientes.
O espetáculo estava montado. Todos fitavam ansiosamente as minúsculas figuras movendo-se entre os retângulos das janelas. Às vezes aplaudiam freneticamente a queda espetacular de um gato, outras vezes vaiavam e assobiavam, irritados com o desperdício de um angorá caído fora do alcance do olhar ou de um gato preto se estrebuchando sobre um telhado, numa irritante recusa a cair no asfalto.
No entanto, as quedas começaram a despertar menos interesse e todos já estavam dispostos a reiniciarem suas tarefas quando um datilógrafo mais afoito resolveu subir em cima de uma antena de televisão e de lá arremessou com toda força um infeliz animalzinho. Isso foi a faísca reativadora da multidão, todos voltaram-se para o edifício de onde caíra a última vítima.
Os ocupantes de outros prédios, revoltados com a apelação do contendor, decidiram partir para a ignorância. Arranjaram escadas, arquivos, caixotes, mesas, cadeiras, e formaram verdadeiras babéis, em cujo topo um equilibrista operava prodígios. Era o delírio. Todos gritavam, batiam palmas e de todas as gargantas saíam − unânimes − exclamações e elogios. E uma procissão de “ahs” e “ohs” grassou no meio do povo, fato maquiavelicamente explorado pelo partido do governo e pela oposição.
Muitos chegaram a guardar um rabinho, uma patinha, como recordação de um dia tão feliz.
O bispo de São Raimundo, ao passar pela entusiasmada localidade e contemplar a multidão tão enlevada em inocente distração, elogiou a índole pacífica e ordeira de todos e abençoou a cidade, o país, o planeta. Não fazia mais do que externar a opinião comum. Todos viviam em um terra boa, pura, bendita. Terra na qual todos conviviam em paz e harmonia, sob o olhar complacente de Deus, um deus esculpido por abnegação e sofrimento, mas muito bonzinho. Deus estava no céu, zelando por cada um dos seus amados filhos e, se bem que fosse completamente impotente para minorar nossos sofrimentos, era um velhinho cordato e incapaz de praticar uma má ação. Era o diabo quem fomentava a revolta no seio da população, incitando-a à desordem, jogando irmãos contra irmãos. Trabalho vão. No país, apesar de propagandas mentirosas, tudo era diferente: oásis, paraíso, Eldorado, nirvana.
No auge da festa, no momento em que todos participavam com maior intensidade, em emocionante ato de solidariedade e comunhão de aspirações e interesses, as infernais sirenas começaram a azucrinar os tímpanos das pessoas. Num piscar de olhos, a brincadeira cessou. Os homens e as mulheres reorganizaram o centro nervoso da cidade: recolheram os objetos espalhados pelas ruas; lavaram o sangue sobre o asfalto e as calçadas; refizeram a ordem e a limpeza em menos de dez minutos. Depois, cada um encaminhou-se silenciosamente para o seu trabalho, em passos largos e pesados, com as faces voltadas para o chão. Os policiais chegaram aos montes e começaram a colocar os eventuais vagabundos fora de circulação.
A vida voltou ao normal. Os neguinhos, a vender amendoim, tornaram a correr da polícia. Nas lojas, nos escritórios, nas fábricas, enfim, em todo lugar onde houvesse produção, trabalho, as pessoas desempenhavam com perícia as suas funções. Tudo na mais perfeita organização e na santa paz do senhor.
As autoridades ocuparam as esquinas, as praças, as ruas, as avenidas, as lojas, os escritórios, as fábricas, os colégios, os hospitais, os ônibus − em qualquer lugar sempre existia um representante da lei. Estava mesmo em votação no Congresso uma lei autorizando a presença de um policial em cada lar, a fim de fiscalizar as atividades domésticas de cada família. Tal lei, caso aprovada, estenderia aos encarregados da manutenção do sistema o direito de permanecer a um canto do quarto quando o casal mantivesse relações sexuais.
Mas isso não é motivo de grande preocupação para todos. Afinal, sábado, à noite, em todas as quadras de escola de samba haverá milhares de indivíduos felizes e satisfeitos à semelhança de outros milhares de pessoas em puro êxtase com as anestesiantes jogadas dos deuses da bola.
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