
Nu com vaso, Enrico Bianco
ESTORINHA INOCENTE
José Antônio Cavalcanti
José Antônio Cavalcanti
Havia um homem dentro do bule e uma xícara vazia. O homem não cabia no bule e o vazio da xícara não a preenchia. Entre o homem dentro do bule e a xícara vazia existia um túnel escuro, ou existia um caminho bem claro. O homem no interior do bule explodia e a xícara vazia se esvaía na sede que não se sacia. E, puta que pariu, o homem no bule vazio possuía a força de gostar da xícara que não existia no homem que a continha. Eis que, súbito, a primeira porta do paraíso mergulha macia em seu muro e a língua da lua apreende a clareza do dia, enquanto o homem dentro do bule não suporta a sangria. A xícara julga o homem dentro do bule: rotula, desentende, reclama do homem dentro do bule a existência do homem do bule; imagina a sua única asa capaz de sustentar o seu vôo até o céu do pra- zer nos lábios do homem do bule. O homem do bule percebe a revolta e nada faz para resolvê-la, dando espaço ao vazio da xícara justificar-se vazio. O bule dentro do homem dentro da xícara vazia não é jesuíta para evitar pecado ou transgressão à lei, recusa a resolução de qualquer problema e deseja do fundo do coração que a xícara vazia se encha de café, cachaça ou qualquer porcaria. O homem que havia dentro do bule é suficientemente puto para manchar a toalha, estragar a festa e saltar no escuro. A vazia exigência de uma perfeição que atenda a todas as vontades, maus humores, brigas com família e questões ao estilo “a minha vida é uma merda” aumentam o vazio da xícara. O homem dentro do bule permanecerá vivo, sempre, apesar da rebeldia da xícara vazia e do vazio da xícara vazia. E, apesar desta ridícula alegoria, mesmo o homem dentro do bule, contra a própria xícara vazia, cul- tivará um imenso querer, um honesto gostar, do homem do bule vazio pela xícara vazia dentro do bule vazio do homem explodindo o bule.
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