segunda-feira, 11 de junho de 2007

ESTORINHA INOCENTE II















O BEIJO, RUBEM GERSCHMAN

ESTORINHA INOCENTE II

José Antônio Cavalcanti

A perseguição do anjo prosseguia demoníaca. O homem já se encontrava encurralado no último beco da cidade. O anjo perseguia, implacável e atemorizador. O homem já não cabia no último beco da cidade, porém o anjo preenchia todo o espaço. Havia partes do anjo pela infância e a recordação de um domingo num parque de diversões, onde o anjo sorria candidamente numa roda-gigante.

A perseguição do anjo prosseguia demoníaca. O volks do homem não ganhava distância do opala do anjo. Na avenida Brasil, quase é alcançado pelo opala. Conseguiu ganhar terreno no túnel Rebouças. O anjo ficou intimidado com as entranhas da terra, na certa. Na lagoa Rodrigo de Freitas, o anjo ultrapassou o volks aflito que derrapou três vezes e cuspiu o motorista sobre/sob o lodo e os peixes mortos da lagoa.

O homem não morreu. O anjo não desistiu. Abriu a blusa e exibiu-lhe os seios. Escorregou as mãos pequeninas pelo dorso do homem, pelo tórax, pelo abdômen, até alcançar o pênis angustiado. Depois disso, o homem não tentou escapulir de novo, nem era possível; o anjo já havia amputado as suas pernas e transformado o seu rosto num espelho de prazeres onde o céu e o inferno coabitavam.

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