segunda-feira, 4 de maio de 2009

GESTALT



                                                GESTALT

                                                                                    Hilda Hilst


Absorto, centrado no nó das trigonometrias, meditando múltiplos quadriláteros, centrado ele mesmo no quadrado do quarto, as superfícies e cal, os triângulos de acrílico, suspenso no espaço por uns fios finos os polígonos, Isaiah o matemático, sobrolho peluginoso, inquietou-se quando descobriu o porco. Escuro, mole, seu liso, nas coxas diminutos enrugados, existindo aos roncos, e em curtas corridas gordas, desajeitadas, o ser do porco estava ali. E porque o porco efetivamente estava ali, pensá-lo parecia lógico a Isaiah, e começou pensando spinosismos: “de coisas que nada tenham em comum entre si, uma não pode ser causa da outra.” Mas aos poucos, reolhando com apetência pensante, focinhez e escuros do porco, considerou inadequado para o seu próprio instante o Spinoza citado aí e cima, acercou-se, e de cócoras, de olho-agudez, ensaiou pequenas frases tortas, memorioso: se é que estás aqui, dentro da minha evidência, neste quarto, atuando na minha própria circunstância, e efetivamente estás e atuas, dize-me porque. Nas quatro patas um esticado muito teso, nos moles da garganta pequeninos ruídos gorgulhantes, o porco de Isaiah absteve-se de responder tais rigorismos, mas focinhou de Isaiah os sapatos, encostou nádegas e ancas com alguma timidez e quando o homem tentou alisá-lo como se faz aos gatos, aos cachorros, disparou outra vez num corre gordo, desajeitado, e de lá do outro canto novamente um esticado muito teso e pequeninos ruídos gorgulhantes. Bem, está aí. Milho, batatas, uma lata de água, e sinto muito o não haver terra para o teu mergulho mais fundo, de focinhez. Retomou algarismos, figuras, hipóteses, progressões, anotava seus cálculos com tinta roxa, cerimoniosa, canônica, limpo bispal Isaiah limpou dejetos do porco, muito sóbrio, humildoso, sóbrio agora também o porco um pouco triste estragando-se nos cantos, um agrado-ternura nos dois olhos, e por isso Isaiah lembrou-se de si mesmo, menino, e do lamento do pai olhando-o: immer krank, parece, immer krank, sempre doente parece, sempre doente, é o que pai dizia na sua língua. É doença não é Hilde? Hilde sua mãe, sorria. Ach nein, é pequeno, é criança, e quando ainda somos assim, sempre de alguma coisa temos medo, não é doença Karl, é medo. Isaiah foi adoçando a voz, vou te dar um nome, vem aqui, não te farei mais perguntas, vem, e ele veio, o porco, a anca tremulosa roçou as canelas de Isaiah, Isaiah agarrou-se, redondo de afago foi amornando a lisura do couro, e mimos e falas, e então descobriu que era uma porca o porco. Devo dizer-lhes que em contentamento conviveu com Hilde a vida inteira. Deu-lhe o nome da mãe em homenagem àquela frase remota: sempre de alguma coisa temos medo. E na manhã de um domingo celebrou esponsais. Um parênteses devo me permitir antes de terminar: Isaiah foi plena, visceral, lindamente feliz. Hilde também.

Ficções, Hilda Hilst, (Pequenos discursos e um grande), Ed. Quíron, 1977. p. 6-7.

sábado, 1 de março de 2008

SAGRAÇÃO












Foto de Sebastião Salgado


SAGRAÇÃO

José Antônio Cavalcanti


Reizinho estava ali, parado. Olhos grandes, arregalados. Boca aberta numa interrogagação sem palavras. Talvez indagando das vitrinas, dos automóveis, das lanchonetes, de onde saíam tantas pessoas apressadas e distraídas. Suas mãozinhas guardadas do frio dentro da camisa, no calor do coração, comprimiam brinquedos imaginários. E toda a ingenuidade desbordava da sua pele arrepiada com o frio da tarde chuvosa.


Reizinho estava ali, entre a grande fogueira dos homens: bolas de fogo na trilha da cidade sem fim. Não sabia do visgo no interior dos prédios, nem da monótona mecanização da vida nos escritórios __ antros impermeáveis à sua presença. Sabia apenas do seu corpo perdido sobre bancos e sob marquises; da falta de agasalho e da fome doendo no estômago; das porradas da polícia; das brigas de rua com moleques de bandos rivais. Sim, os outros: aqueles que nunca foram diferentes porque estavam com ele na hora da pancadaria, no dia-a-dia de sobressaltos e carências.

Reizinho estava ali, parado, flor do abandono a assustar os engravatados, mas os bacanas, entre suas pastas de couro e uma mão estendida, optavam por jornais incompreensíveis e sanduíches desconhecidos.

O nome ninguém sabia como surgira. Seria o reizinho dos pivetes, aquele que mais roubava porque mais fome sentia? O maior estorvo à consciência cristã dos comerciantes da praça e adjacências? Que filava cigarros e suplicava pão com manteiga, pastéis e salga dos? O precoce apreciador de cachaça __ para diversão de adultos insanos? Que engraxava sapatos, cuspindo sangue para deixar os doutores felizes em seus caprichos de mando? Que era até capaz de conversar quando um executivo, num gesto magnífico de suprema condescendência, começava a puxar assunto e a fornecer-lhe uns trocados, dando esmolinha para certificar-se da própria nobreza do caráter superior, numa tentativa inócua de provar a si mesmo não ser indiferente ao desamparo alheio?


Reizinho é rei, é menino. Às vezes sonha __ possibilidade considerada inconcebível por quem o observa todo suado agitando sacos de biscoito vagabundo no meio do engarra famento ou quando pode ser percebido furtando laranjas e tomates na feira. Reizinho é um autêntico rei, não há dúvidas. Aquele cujas pernas alcançam limites de flecha. Aquele cujo dorso negro equilibra-se no chute em curva com bola de couro, de meia, de papel, ou de plástico. Aquele que é inatingível, protegido pelos deuses, amado por Ogum, e ninguém pode vê-lo quando não deseja ser visto. Aquele que é punguista e imantiza carteiras, doces e relógios. Aquele que é a força da terra, a raiva latente no zinco dos barracos, a dor que, de tão antiga, já se esqueceu de gritar e convive ao lado do riso no mesmo semblante.


Reizinho é tudo. Um mundo de pirraça, insistindo, teimando, resistindo. Um mundo regido por estoques, giletes e navalhas, no corte rápido, na bolsa entre os dedos, no grito da vítima sem complacência, na perseguição implacável dos milicianos do caos. Reizinho não cai, não tropeça. Antes, desliza e valsa feito antílope percorrendo a savana de outro conti- nente __ a grande terra dos avós.


Reizinho, às vezes, se pega com modos de criança. Verdade que franze o cenho. Não pode desperdiçar tempo com bobagens. O mundo é muito exigente. Mas... acontece. Num gesto involuntário, começa a empurrar uma pedra pelo chão da praça. Mímico insuperável, imita o ruído de automóveis ou de aviões, provendo asas em pedra. Depois, engatilha caixas de fósforo à maneira de um trem destinado ao imponderável. Quando junta-se aos barulhentos parceiros, forja um balé de saltos e fugas, uma esgrima na qual vilões invisíveis são vencidos por velhos cabos de vassoura transformados em espadas invencíveis.

Que mágicas habitarão os seus sonhos deitados sobre folhas de jornais pródigas em tragédias? Tem-se a nítida impressão de que neles se interroga sem cessar e busca a cor dos distantes e perdidos desenhos da inocência; neles transita uma mulher envolta em rou- pas transparentes e com um turbante de fogo, a expelir pássaros negros de suas mãos feitas de terra. Um homem imenso, de garras de cristal, alveja os pássaros com flechas de luz. De seus lábios grossos e metálicos fogem canções negras e espessas como a noite e, aos seus pés, apodrecem milhares de algemas.


Fora das fortalezas do sonho, Reizinho tenta desenhar mentalmente o rosto de um pai e de uma mãe com os fiapos da memória. Pensa em como poderia ter sido a vida com eles ao seu lado, como seria bom se estivessem sempre por perto. Será que ainda irá encontrá-los? E imagina um redentor reencontro feito de grandes abraços, risos em profusão e um batuque eterno. Ah!, no entanto o pai é um deus africano totalmente sem juízo. Não deixou-o jogado ao léu de propósito: deve ter tomado um porre homérico e, depois de espancar a mulher e as crianças, abandonou o lar, esquecendo-o em sua fúria. A mãe ( quem sabe se ainda estará viva?) embarcou num show de mulatas. Hoje, talvez gire perdida em algum terreiro de umbanda. O vazio entre ele e os pais (Não aquecerá o seu corpo minúsculo, no frio das madrugadas, o sangue paterno escorrendo ao lado do materno nas manchetes dos jornais?). Infelizmente a família é uma ciranda sem cirandeiros, nada sabe a respeito: faz idéia pelos outros e não pode deixar de sentir-se magoado ao contemplar pais e filhos em passos de riso e comunhão.


Reizinho sonha com coisas menores, mais palpáveis, como um relógio importado, de valor inestimável, que já adornara o seu pulso esquálido, tão bacana que bastava comprimir suavemente o dedo sobre o mostrador e diversos números indicavam a hora em várias cidades do mundo. Lembra-se de tê-lo tomado de um garoto da sua idade na porta de um desses colégios de rico. Infelizmente, um malandro resolveu ficar com ele em troca de uma dívida antiga. É, o mundo é muito exigente.


Apesar de todos os males, Reizinho ainda conserva a capacidade de rir. E o seu sorriso não possui nenhuma explicação. Não poderia sorrir como o faz, tão amiúde. O mais fasci- cinante é que não é um riso educado, comedido, daqueles que têm freio no coração; não é um riso alto, autêntica gargalhada, de quem se joga por inteiro nos gestos; não é um riso marcado pelos vincos do infortúnio daqueles a quem o destino humilha e brutaliza. Não, quando Reizinho sorri, o riso em sua pequena boca selvagem dilata os limites do possível e a esperança desponta límpida e cristalina, fora de qualquer justificativa.


A vida ministrou-lhe lições inesquecíveis. Aprendeu a ler em gibis e em revistas de sacanagem, entretanto a virtude mais importante aos seus olhos era a sua extraordinária facilidade em enganar as pessoas, ludibriá-las, empregando os seus insuspeitos dotes de charlatão e comediante, desvelando, com isso, o seu profundo conhecimento do ser humano, de suas fraquezas, de sua alienação absoluta.


Quando a cana dava em cima, tinha o tom exato da lamúria, o ar amedrontado de criança abandonada, a desculpa de que seus pais o expulsaram de casa depois de terem lhe aplicado uma surra desumana, e aquela velha história de que estava indo para a casa de uma tia moradora do morro de São Carlos, ou, então, haviam roubado a sua caixa de engraxate, a sua lata de amendoim, as suas balas de tamarindo. É bem verdade que levava alguns cas-
cudos, contudo sempre lograva safar-se matreiramente.

Se não gostava da polícia, muito menos morria de amores por aquelas madamas numa lambeção irritante: meu filhinho pra cá, meu filhinho pra lá. Reizinho não suportava tanta hipocrisia, tanto chamego exagerado, tanta gente chata querendo pregar remendos na consciência, adquirindo, pelo crediário das boas ações, uma vaguinha no Paraíso. Penalizadas, assistencialistas, prendadas e caridosas, olhavam-no como tese de mestrado, pesquisa sociológica, tarefa pedagógica ou obrigação cristã. Certas vezes o nojo era tão acentuado que ficava engendrando pequenos atos cirúrgicos: cortar a jugular da mais fanhosa; enfiar um estoque bem comprido e afiado no rabo da mais pegajosa; passar uma gilete na face da mais autoritária. Pior do que aquela cantilena toda era quando, insensíveis aos seus gritos e súplicas, as desgraçadas levavam-no para aquele prédio dito escola, mas espécie de manicômio/delegacia/presídio/cemitério. E toma-lhe cascudo, palmatório, aviãozinho, corredor polonês, ajoelhar no milho, porrada, aulas ricas em reguadas e escrever mil vezes “não devo dizer palavrão na sala de aula”.


















Reizinho já acha a vida uma grande porcaria. Não sabe o que significa morrer, não obstante haja visto muitos mortos, alguns até amigos. Já está indo longe demais, além do seu raciocínio. Torna-se cada vez mais difícil esperança, anseio de melhoria qualquer. Quase ponto final. O mundo é muito exigente. Já não é negocinho de estoque, gilete e navalha. Não. Seus dedos apalpam um quarenta e cinco num gesto amoroso. O mundo é muito exigente. Está na hora de provar para a rapaziada que já é um homem, que é rei de verdade, que é esperto e mete bronca, não é nenhum calça-frouxa. E a fome comanda os seus nervos, os seus dedos. Só que chega de empunhar, de acariciar, de imitar bandidos e mocinhos. Isso já não é suficiente. O mundo é muito exigente. Agora tem de apertar em cima de alguém se for preciso, e se não for preciso. Agora esse é o seu brinquedo, o único que lhe foi dado e, deus do céu!, como ele gosta dessa brincadeira, como aperta o gatilho, como se entretece com a dolorosa música dos estampidos!

segunda-feira, 16 de julho de 2007

JOAQUIM PALHARES, 308, SOBRADO, ESTÁCIO



JOAQUIM PALHARES, 308, SOBRADO, ESTÁCIO

Um samba-narrativo de José Antônio Cavalcanti

A casa estava abandonada como uma cidade fantasma. Janelas abertas e olhos insones desmontavam arcanos e reminiscências. Pés e mãos perfurados por cigarros acesos e pregos enferrujados sustentavam um corpo crucificado na sala de jantar, antes do almoço. A casa estava vazia e supensa no ar, depois do despejo, do choro, da revolta de seus moradores e do peso de sua velha mobília terem descido degraus perplexos e inseguros. Pano de prato não serve para suicídio e a vida no presídio não vale o pavor na face lívida do oficial de justiça. Então, desocupar, fugir, recolher as cicatrizes e as rachaduras dessas paredes úmidas. Última flor do Estácio. Poiésis e veneno. Laço no pescoço. Dívidas e dívidas. Cintilação de estrelas sombrias em inolvidável segunda-feira, dez de fevereiro de mil novecentos e setenta e cinco. A casa completamente deserta, trincheira sem defensores, isolada numa esquina vadia, longe dos gritos de crianças medrosas fugindo por seus corredores longos e escuros, pasto de tímidas assombrações; longe do gozo de seus homens e mulheres brincando de pecado e perigo nas dobras de um tempo sombrio. Só o cheiro de álcool e suor, ainda entranhado em seu ventre, denunciava extintas primaveras de prazeres e testemunhava em silêncio uma época em que a noite adormecia a raiva e o ressentimento represados durante o dia. Joaquim Palhares, 308, sobrado, Estácio. As incontáveis batalhas travadas na calçada, na escada, no porão, nos quartos, converteram-se no martelar de um bate-estacas, no movimento ritmado e impiedoso de operários e betoneiras, metamorfoseando o passado em escombros, decompondo, tijolo a tijolo, esse pequeno universo desprovido de tamanho. Os fornos crematórios do progresso apagarão vestígios de porres e danças no lugar sagrado da tribo. Ultraje. Heresia. O assoalho não beijará os passos de seus bêbados incorrigíveis. A alegria delirante e boêmia de sua malandragem cederá vez e lugar à pose elegante de uma desumanidade, a um mundo arrumadinho, obediente a códigos de funcionalidade e indiferença, dominado por zelosos e eficientes gerentes de imagens, simulações, conveniências, vento. A polícia poderá fechar o livro de ocorrências, liberta do constante vaivém a pedido da seleta vizinhança. O trezentos e oito riscado em cruz. O estigma dos condenados. A marca sinistra dos inimigos da fé. Resta a Santa Inquisição, os jagunços do Tesouro Nacional, os engenheiros da Construção Perfeita, todos caírem sobre sua carcaça e como gralhas devorarem a pequena margem de pânico e lucidez dentro dos seus múltiplos olhos atônitos. A demolição move-se com pés mercuriais. Um sobrevivente perambulava pelas maltratadas dependências do sobrado, levando um espelho quebrado para não esquecer o próprio rosto saturnino e guardar bem viva a expressão de mágoa da casa adormecida. A casa tão dentro, tão no interior de tudo, tão só. Morcegos, ratos, aranhas, escorpiões, baratas, descargas quebradas, torneiras enguiçadas, fechaduras defeituosas, vidas perdidas. A casa furiosa com o trágico destino, batendo portas e janelas, desafiando a eficácia de máquinas e dos especialistas em demolição, ameaçando despencar do seu instável equilíbrio a qualquer momento e vingar-se de sua condenação. Tão gelada quanto as cervejas que, em dias de gala, recriavam o milagre da multiplicação do pão e do vinho. Pintada de branco, realçava a sujeira a formar estranhos desenhos em sua pele acinzentada. Um branco cor de ausência. Um branco que esgotara toda a sua alvura ao doá-la, generoso e cúmplice, a todos os momentos de nossas vidas. A casa, agora, reduzida a completo desamparo, repelia qualquer tentativa de contato, tolhia a imaginação e se furtava a um entendimento. A magia da casa não ocultava, entretanto, sua natureza labiríntica, os meandros onde as perdas e os pesadelos armazenavam-se, emudecidos. Joaquim Palhares, 308, sobrado, Estácio. Estacionauta invade a contramão e tropeça em pedaços de conversas, fragmentos de beijos e carícias, migalhas de sonhos, misturados ao tinir de copos, ao chiar das panelas, ao escorrer de águas em tanques exaustos. Sente o ruflar de asas inamistosas sobre a cabeça anelante. Ameaça de represália. Estacionave incapaz de inaugurar a sua trajetória, presa ao chão da memória de maneira irremediável. Estacionave ancorada no porto intergalático da América: América dos molambos, América das trapaças, lúmpen-América. Porto aberto aos flibusteiros, cruéis aventureiros, caçadores de índios, capitães do mato, bandeirantes em busca de tesouros, bandidos de todas as latitudes. Porto aberto a todos ansiosos por explorar teus meninos, tuas mulheres, tuas jazidas, tuas safras, tuas matas. Todos no mesmo barco. A solidariedade dos oprimidos forma um cordão protetor ao redor de cada um. A casa – apenas refúgio e esconderijo. Joaquim Palhares, 308, sobrado, Estácio. O cupim corroendo o madeirame. O jogo do bicho sempre a renovar expectativas de soluções miraculosas. A saga coletiva. Carlinhos, malandro e miserável, roubando bicicletas. Isaura, trabalhando todas as possibilidades do corpo. Henrique, ao volante de caminhões de cimento, dirigindo como um possesso a fome da família. Neca, bancando polícia, impondo respeito com pernas de capoeira, dando uma de xerife nos botequins adjacentes. Rita, sósia mal acabada de Ícaro, cujo salto suicida deixou-a viva, porém incrustou ao seu corpo um andar torto como o de um anjo exilado, sob o peso eterno da morte da filha de seis meses na queda. Cristina, sempre esgueirando-se furtiva meia hora após a saída do marido para ver se recuperava com o seu viço e juventude o salário que ele gastava com bebida. Leila, a tonta, a sem juízo, que, enfurecida pelo fato de o marido ter esgotado o seu corpo e procurado novos tesouros em outros braços, perseguia garotos bonitos às carreiras pela rua, de camisola e sem dentes. Betinho, sem tempo e sem condições para tornar-se homem. Manéu, que alugava cômodos de um imóvel que não lhe pertencia, enquanto aguardava a redentora proposta de alguma viúva rica. Getúlio, assassino de outro homem num caso equivocado de amor e traição e agora a beber arrependimento, olhando fixamente numa foto antiga o seu sorriso ladeado pelas faces felizes da mulher e do irmão. Mauro, que descera as escadas com o auxílio de todos os moradores, marejado de lágrimas e súplicas, a caminho do Hospital de Engenho de Dentro, onde a morte o esperava entre choques e terapias homicidas. Moisés, que morreu num grande porre, depois de armar o último balão apagado. Luis Carlos, cujas mãos desferiram seis facadas no padrasto e os pés fugiram para Santa Catarina, para o corpo morrer afogado aos vinte e quatro anos de idade. Tiana, fugitiva do São Carlos, incapaz de explicar a pressa e o isolamento. Negão, que encarava qualquer barulho, desacatava polícia e, vez ou outra, hospedava-se por conta do estado. Marquinhos, empurrando carrinho de rolemã nas feiras, lavando carros e fazendo ganhos para assistir a bangue-bangues nos poeiras. Todos, agora, espalhados pelos sete cantos da cidade, sobrevivem na periferia da Babilônia, em terras de assaltos diários, ruas de lama e esgoto, sem luz, sem conforto, sem saída. Gado levado para engorda. Os caros filhos da pátria, da terra gentil, da cidade maravilhosa, do eterno berço esplêndido. Os habitantes da res publica, perfilados no paredão cinza dos dias, prestes a sucumbir perante polícia, autoridades, governantes, doutores, líderes carismáticos, fiscais da agonia, mascates do sofrimento humano, formam alas avessas às carnavalescas. A casa guarda sua tragicidade em folhas negras, adormecidas no sótão. A casa contaminada. A casa condenada. A casa suspeita. A casa mal-assombrada. A casa apenas casa: lugar de comer e dormir, amar e sofrer. Pôsteres e retratos como medalhas disseminadas pelas paredes enrugadas e tristes, acumulando camadas de gerações como se fossem pinturas sobrepostas. Estacionauta num mar que não dá livre curso ao seu calado, nem suporta a tonelagem de glórias e infâmias. O velho encouraçado desmanchou-se com o calor, a pressão do progresso, a especulação imobiliária, desviou-se do caminho previsto e adotou a rota das grandes fugas. Sinal de alarme: rombo no casco, botes de emergência, grades cerradas, lençóis amarrados um a um, uma pistola sete meia cinco na cintura. A casa sangrando pelas frestas do telhado. A água lavando mansamente os palavrões e as inscrições apaixonadas espalhadas pelas linhas tortas do seu corpo descascado e pulsante. Henrique é morto. Leila sumiu. Getúlio foi morar em Anápolis. Isaura vive com um alto funcionário do Banco do Brasil e não quer mais saber de ninguém. Sobra apenas a interminável fila do banheiro, as brigas, o desencontro total de vozes, pessoas e sentimentos. Resta o olfato descobrindo carne assada, peixe com coco, galinha ao molho pardo ou feijoada, em dias de aniversário, de batizado, de casamento, de milhar na cabeça. Resta a festa diuturna das crianças, importunando os infelizes, desorientando as regras estabelecidas, inventando a esperança em cada gesto, a cada minuto. Resta a dor e o desemprego, a falta de frutas e verduras; a expressão de espanto dos filhos, perguntando, inconformados, por balas e doces. Resta o amor sem perguntas a instalar-se sobre si mesmo, sem precisar recorrer a explicações ou justificativas, pois amadurece subterraneamente e quando aflora vem, caudaloso e irrefreável, arrastar reservas e resistências, ligar destinos, abalar antigas paixões, inverter valores, descobrir o véu de automatismo sobre o cerne da existência – forte, denso, inexaurível. Estacionauta, o último sobrevivente. Na impossibilidade definitiva de sustar a demolição, levou a casa no interior dos olhos: sugou as vigas e os tijolos; absorveu os tacos e as telhas. Estacionauta através do espaço, guiado por espelhos mágicos e cometas suicidas. Estacionave a preencher a memória do estacionáufrago. Joaquim Palhares, 308, sobrado, Estácio. Velhice. Decadência. Aposentados jogando baralho, dama, xadrez. Peladas no meio da rua. Princípio do mundo. Pipa cortando macia o azul dos domingos. A novela das oito desunindo e domesticando a família. O pau comendo solto no final dos bailes. A casa. A presença da casa nas mangas da camisa. A casa. A linguagem das cartas na caligrafia da casa. A casa vazia. A vida extirpada violentamente da insegurança da casa. Vazia a caixa do coração. Covil. Pardieiro. A casa vazia e forte. A casa vazia e forte. A casa vazia e forte.

segunda-feira, 9 de julho de 2007

ANIVERSÁRIO











Três músicos, Clóvis Graciano


ANIVERSÁRIO

Mais duas, pensou. O apartamento repleto de ruídos, abria-se a um corre-corre insuportável. Corpos misturados anexaram o corredor e as escadas à sala apertada e insatisfeita. Mãos esvoaçavam ágeis, aumentando o espaço, dissimulando, velozes e vorazes. Crianças modelos, problemas, prodígios, bonitas, doentes, honra e vergonha dos pais, meus filhinhos e minhas filhinhas, queridinhos, gracinhas, levados, coisinhas doces, capetinhas, ingratos, anjos barulhentos e desdentados apunhalavam olhares sequiosos no bolo e seus cúmplices.

Medo de fotografia. Medo dos pais. Medo.

O apartamento confeitado, transformado em vitrina, mostra das virtudes familiares. Trabalho e beleza pendurados nas paredes, no teto, no peito orgulhoso dos pais da aniversariante – bichinho murcho, assustado em cima de um banco, estonteado pelas gargalhadas riscando o ar da sala, pela música ensurdecedora, pelo atropelo. Parada, desaprendendo palavras, era uma boneca trabalhada em laços e rendas, vestida em nuvens povoadas de animaizinhos mimosos; uma princesa fotografada em torre medieval.

As paredes elásticas incorporavam novos contingentes de parabéns e presentes. Trovões esganiçados desequilibravam-se em lábios maternos alvejando ordem e respeito (respeito?). Inútil. O chão engolia bombas e brigadeiros destroçados, guaraná, glacê, cerveja, fora o bate-pé da pirraça. Gritos e exclamações transbordavam, manchando a mobília de espanto.

Três anos. A aniversariante, à margem da comemoração, contemplava desanimada pequenos embrulhos em papel colorido, coroados com laços de cores vivas. Três anos. O pai sumira no meio de bandejas, copos e garrafas. A mãe trafegava afoitamente entre os convidados. A vó cozinhava-se ao forno. Três anos. Nos seus ouvidos ressoavam “meu filho é isso, meu filho é aquilo”. Palavras misteriosas – balé, judô, natação, piano, inglês, informática – eram pespegadas às crianças, ampliando-lhes o ser. Assemelhavam-se a crachás, marcas registradas de prosperidade. Pompa e circunstância. Campeonato carnavalesco de maravilhas e virtudes: o filho mais alto, o filho mais gordo, a filha mais inteligente, o mais rápido, o que mija mais longe, o que cospe mais alto... Três anos. A aniversariante assustada com o mundo. Num canto murmuravam algo a seu respeito: “ –Coitada! Não cresceu nada!” Noutra rodinha achavam o bolo de mau gosto e os doces mal feitos. Alguém recordava outro aniversário com buffet, palhaços e uma bandinha. Três anos. A aniversariante é um confeito a ser devorado. Todos os olhos cravados na transparência do seu rosto; setas do mundo a desvendar-lhe a natureza humana. A garotinha vislumbrava nesgas de carinho, fiapos de ternura tremulando no meio da festa. Transitava leveza por colos e colos, luminosa e fluida. Galgava pernas desconhecidas. Ganhava beijos imprevistos e beijos programados. Elogios ensaiados, forçados, sinceros. Afagos espontâneos ou formais. não compreendia que a festa não lhe pertencia.

Mais duas, pensou. Onde caberiam? O apartamento apinhado de gente, um calor insuportável, uma música infantil enfadonha, uma zona. Ao seu lado uma mulher berrava:
“– Cláudio! Clááááudio!!”, enquanto a espuma derramava-se pela estante. A mulher bebeu um gole, apertou a orelha do filho, torceu-a com toda a força, tomou outro gole, e largou o Cláudio, trocando a sua orelha por um salgadinho.

Mais três. Não. Tinham saído e voltado. Melhor desistir daquele improfícuo exercício. Sentiu a mãe do Cláudio olhar fixo nos seus olhos. Abaixou-se para cochichar algo com o filho, aproveitando o momento para ampliar o decote, desprotegendo seios morenos e maduros. Sorriu para ele, vulgar e acessível, as formas um tanto excessivas, talvez. Mas, ainda assim, era uma mulher encantadora. O filho escapulira para uma brincadeira de super-heróis. Ela olhou-o de soslaio, promissora.

O pai da aniversariante, muito mais ocupado num minucioso estudo de líquidos liberadores, brigava com a máquina fotográfica, realizando a proeza de estragar quase todas as fotos, podando grandes áreas da filha, decepando cabeças, descobrindo ângulos inéditos e climas irretratáveis. Só a mãe esfalfava-se em vão, ao perceber o desconforto da filha, doida para tudo acabar logo. Por isso, certamente, apressou os parabéns.

O ritual foi exemplar. A massa compacta dos convidados ao redor da mesa. As crianças dando cotoveladas e pisando umas nas outras, impacientes. Os pais de olho no bolo, na aniversariante, vigiando-se. Vela acesa, luz apagada, cantoria, alegria geral. Uma, duas, três vezes. Em cada apagar das luzes, a mãe do Cláudio e ele bem juntinhos, roçando-se.

Livre das obrigações paternas, distribuídos doces e bolos, recolhidos os presentes, o aniversário começou. A hedionda música infantil substituída por uma execrável canção deamor, a mãe do Cláudio chegou-se toda para ele, morna e viscosa, abrindo um leque de ardis e fingimento. Ele, no entanto, observava uma coleção mal conservada de José de Alencar, distraído e bêbado. Não recusava mais nenhum copo, bebia mecanicamente, vendo a aniversariante brincar com outras meninas, dona de uma alegria inimaginável momentos atrás. Olhava-a como quem examina atentamente um quadro que jamais pintará, uma mulher que jamais possuirá, um emprego que nunca será seu. Teria feito igual? Afogado a sua casa de parentes e amigos, estrangulado o prazer, sufocado a vontade de correr, pular, cantar, entulhado cadeiras e sofá de mexericos, futricas de candidatos a pai do ano, mãe exemplar, déspotas impiedosos dos filhos? Talvez. Não, não era juiz, nem podia... Privado de descobrir, restava-lhe morder um quibe e entornar cerveja na roupa, pensando no que fazer com a mulher ao lado.

– Você é amigo do Célio?

A pergunta perturbou-o. Célio? Que Célio? Não conhecia ninguém com aquele nome, entretanto, talvez fosse o pai da aniversariante.

Ela gozou o seu constrangimento, comprazendo-se com a sua vantagem. Falsamente alarmada, golpeou-o mais forte:

– Não vá me dizer que não conhece o Célio?!

Claro, já percebera o jogo, a trama primária a revelar-lhe trabalho de amadora. Resolvera aceitar regras viciadas e adaptar-se mansamente, guardando o seu veneno para lances certeiros e mortais. Evitou encará-la quando, diante do seu ar surpreso, ela sorriu triunfante e segredou-lhe, tocando de leve as suas orelhas com lábios sedentos de gozo:

– Célio é o pai da Dinah, a aniversariante.

Em vão esperou explicações. Ele manteve-se nirvânico, desventrando a família pendurada na parede. Imaginando-se chefe de família, pai, marido, feitor de sonhos e destinos. Daria tudo para estrangular a mulher intrometida, pegajosa, crivando-o de perguntas idiotas. Queria lá saber de Célio! Mirou-a feroz e respondeu com mansidão:

– Não conheço nenhum Célio, nenhuma Dinah, ninguém. Para ser sincero sequer me conheço. Ninguém conhece ninguém. Não conheço você. Você não me conhece. Não existe nenhum conhecimento.

Ela tirou outro salgadinho de uma bandeja semideserta. Mordeu-o cheia de glamour, ajeitando com a mão esquerda a alça do soutien. Riu tranqüila e satisfeita. Aquela conversa prometia muito. Encostou-se nele e falou baixinho:

– Penetra! Hein... Pensa que me engana, seu malandrinho. Penetra!

Suas palavras recendiam cumplicidade. Uma cumplicidade longa, morena e igual em todas as sílabas. O corpo prolongava a entonação daquelas palavras, ampliando-lhes o sentido, abrindo e travando promessas. Uma cumplicidade sem complacência: exigente, autoritária, possessiva.

Àquela hora a maioria das crianças já havia sido despachada. Algumas, todavia, permaneciam ativas, esquecidas de sono e cansaço. Não obstante, a festa transformara-se num círculo imenso, no qual feixes de energia interligavam os seres. Conversas cifradas, piadas, casos, façanhas, cantadas, feitos e fatos regados à batida, vinho, cerveja ou cachaça faziam do pequeno apartamento uma encruzilhada, ponto de tangência onde almas peregrinas, egressas do tédio e da desesperança, cruzavam e descruzavam caminhos. E isso acendia frações de resistência. Ainda que os encontros fossem construções de descompassos e incertezas. Mesmo que as pessoas se encontrassem apenas para um duelo, uma esgrima de misérias e ausência. Um ponto onde se projetava uma arquitetura de conflitos, prenúncio de inevitável solidão.

– Você está redondamente enganada. Não sou penetra. Apenas estou aqui. Mas não ingressei. Estou fora, entende? Estou aqui e estou fora.

– Bancando o filósofo, hein... Malandrinho! Você , para quem não está, bebeu um pouquinho, né? Por favor, não fique zangado. Não me interprete mal. Para mim você está aqui e isso é o que importa. Nós dois estamos, conversamos, nos divertimos aqui e agora. Nós nos encontramos. Isso não é maravilhoso?

– Maravilhoso? Mas eu nem sei o seu nome. Não, absolutamente, não nos encontramos, apenas nos enganamos. Não conversamos encadeamos sons desordenados, ilógicos, providos de farpas, cadeia ilusória de sentidos. Presos a graus cada vez maiores de cegueira, circulamos vazios e atados aos grilhões de frases desconexas, absurdamente prolixos e pedantes. Bebemos, comemos; sequer nos divertimos.

Ela procurou o Cláudio com olhos desatentos. Rápida e faceira, atrapalhava-o. Provocante e fácil, deixava-o desarmado, escravizado a uma psicologia livresca e protocolar, a enquadrar personalidades em tipos humanos, despercebido do rio caudaloso da existência, fértil em descobertas e diferenças. A imprevista capacidade de absorção criava-lhe embaraços. Definitivamente, vulgaridade revelava-se tão-somente sinônimo de algo imponderável, indefinível. Étimo modificado por um lodo deformador, filtro de olhos decadentes, alfinetando rótulos, provando juízos e valores nas pessoas à revelia de vítimas e ciência. Deselegante e atabalhoada, vista num relance, exorbitava fronteiras de compreensão, minava certezas.

Irresoluto e desconcertado, ele segurava com dificuldade um copo cheio de vinho há mais de meia hora, escorando uma parede oscilante. Achava que a aniversariante pendurada na parede poderia trazer a assinatura de Rubens. O fotógrafo caprichara. Talvez a mãe houvesse gasto vinte e quatro horas para arrumar os cachos, o vestidinho branco com rendas azuis. Fitinhas. A posição certa. O ar certo. O olhar certo. A luz. O ambiente. O tamanho. O preço.

– Tentando me enrolar, hein... seu malandrinho! Vai ver que você não é nem penetra. Então não somos nada, nada valemos, mas você bebe, come, conversa. Só não existe. Ou será que a bebida tem a capacidade de torná-lo vazio? Há pessoas que gostam de posar de vazias. Constroem-se vítimas, alvos eternos da infelicidade e da angústia. Algumas buscam até fundamentos, lêem livros complicadíssimos, conhecem teorias da dor e do sofrimento, forjando explicações esfarrapadas para males inexistentes. Vazio não é quem se esvazia? Isso não é ser vítima do próprio crime?

Como é que ela podia conciliar tanto, abrir-se banal e invulgar. Droga. Mais um malandrinho daqueles, salivoso, e perderia a cabeça. Tornou-se mais fechado, impermeável. As pessoas oscilavam bojudas e graves. A aniversariante fazia oitenta anos. O pai fotografara animais em extinção num baile sem dança, sem máscara, sem motivo. Não podia aceitar acusações. Ela investia-se de poderes divinos. Grosseira e leviana, tentava incriminá-lo, recitando um discurso de assistente social de baixo calibre. Lutava por derrubá-lo rapidamente, colocando suas idéias no terreno do subproduto alcoólico. Ágil fêmea morena, senhora de formas em molde de cobiça. Morna matrona, tepidez do desejo nascendo irrefreável. Aranha pequena colhendo em teia tão frágil uma construção sem vigas, sem alicerces. Animal vulgar enxameando a cabeça de milhares de malandrinhos repugnantes, qualificativos lançados a um mar sem fundo. Ele segurava um copo inexplicavelmente cheio de vinho vagabundo. Agarrara-se a uma vagabunda, mãe de um vagabundinho, numa festa vagabunda, numa vida vagabunda. Não, não estava tonto. O vinho não poderia derrubá-lo. Um penetra nunca é derrubado, apenas enxotado pela família, pelos amigos da casa, pelos outros penetras. Ouvia o ritmo nervoso da música. Percebia os movimentos rápidos de dançarinos improvisados. Insuportáveis, agora, eram aqueles olhos tépidos injetando sobressaltos na sua alma. A proximidade de carnes. O contato de peles. O entrecruzar de hálitos. Dedos tocando-se mágicos.

Ela gritara Cláudio bem alto. O garoto veio cabisbaixo, sonolento. Segurou o filho no colo, depois de limpar a boca com um guardanapo de papel e de tomar o último gole. Imponente e fútil, esperou pacientemente por ele. Percorreu todo o seu corpo com os olhos ansiosos. O filho pesava muito em braços enfraquecidos. A festa era algo distante, sem qualquer ligação com ela. Um rumor de vozes do outro lado do planeta Terra. Uma aldeia perdida numa selva comemorando ritos milenares: o plantio e a colheita, a fecundidade da terra, a perpetuidade da vida. A festa era um simples penetra em quem gostaria de abrigar o seu corpo, incrustar os seus pensamentos. Mas ele armava muros. Repelira com palavras veementes aquilo que afirmava com olhos de cão faminto. E agora, desguarnecida de trunfos, empunhava espadas no olhar, ameaçadora, terrível. Despojada de lógicas e razões, concentrava-se toda em seus contornos, densa, repleta, transbordante.

Ele perdia todas as folhas com a ventania soprando forte e inflexível. A lacuna dentro dos seus atos não se extinguiria. O vazio não bateria em retirada. A dor e a solidão permaneceriam acesas. Nenhuma comunicação. Nenhuma mensagem. Nenhum chamado o salvaria.

– Vamos?

A pergunta tirou-o daquela zona de turbulência, clareando a sala e as pessoas. Tomou-lhe o filho e carregou-o cuidadosamente. Uma gosma escorreu por seu ombro direito. Sentira o tênis emplastrado de doces. Suava. A quentura daquele corpinho molhava a sua camisa.

Quando entraram no elevador, ele observou que ela tinha as mãos ocupadas; pratinhoscom doces, bolo e salgados equilibravam-se como por encanto. Ela fitou-o gulosa e ordenou-lhe:

– Quinto andar.

terça-feira, 26 de junho de 2007

RUPTURA













Tripthych - Studies from de Human Body - 1970 - Francis Bacon

RUPTURA

José Antônio Cavalcanti

Só, rosto colado à vidraça, na muda contemplação da chuva, sonhava outros tempos, pródigos em esperanças. A chuva, indiferente, caía miúda e persistente. Dona Z não via mais as sombras úmidas por trás do vidro. Seus olhos pareciam um estranho vitral projetado para o passado um território apascentando túmulos secretos onde apodreciam grandiosos projetos de vida.

Só, como sempre estivera, mesmo ao lado daqueles que saquearam o seu corpo em busca de prazer, observava os seus cacos espalhados por cima da mobília e uma sombrinha abrindo seu colorido desanimado a um canto da sala.

Já não olhava através do vidro embaçado pela sua respiração forte e ritmada. Distraída, vagava lentamente entre mesas e arquivos, guiando a matilha de sonhos encurralados no cubo geométrico da rotina.

Nos corredores, quando passava, cochichos. Diziam que ela era..., que ela fora..., que ela fizera... E não podia deixar de magoar-se com risos abafados denunciando intrigas e calúnias. No entanto, temiam-na. Sabiam dos seus grandes poderes: manejara homens, domara chefes, destruíra carreiras. Agora, ao caminhar despojada de trunfos, diminuída em seu prestígio, onde, outrora, tantas vezes desfilara arrogância, resultavam ridículas as jóias espalhadas pelo corpo, a roupa forçando formas que ameaçavam se esfarelar. Sim, os seios murchos, sustentados à força da astúcia feminina, as nádegas mambembes, as pernas enxameadas de varizes, ocultas à custa de mil estratagemas, faziam ressurgir a impiedade dos inimigos, as piadas cruéis, as estórias obscenas. Sim, por trás, todos riam. Não obstante, vista de frente, Dona Z ainda impunha respeito: a ostentação de um passado em que o poder transitava por seu corpo permanecia viva nas paredes, nos documentos e na pele dos subalternos.

Só, rosto colado à vidraça, na inquietação transparente dos olhos, contemplava a chuva, líquida cortina a fechar o pano de outros tempos.

A aposentadoria ameaçava invadir os limites do seu ser. A sensação de inutilidade, de ser traste, objeto a ser abandonado, crescia. Um mal-estar horrível o descobrir-se sucata desesquecida entre máquinas, mesas, arquivos, papéis, carimbos, armários, paredes, documentos perdidos como as esperanças perdidas em tantos anos de vida. Anos de morte. Sim, de morte. Com todas as minúcias da burocracia, com todas as exigências impostas pelas necessidades e pelo absurdo. Uma morte vivida em toda a sua formalidade de assinar ponto, preencher de tédio formulários, preparar ofícios ao nada, minutar a dor de todo dia exalando solidão pelos poros. Morte semelhante à sua dissolução entre lençóis e mentiras, sob os quais o gozo era um passo rumo a um futuro melhor, cujas promessas de dinheiro e influência inflaram os olhos e aumentaram a sede de Dona Z: ex-datilógrafa inexperiente oriunda dos conselhos maternos para os perigos do mundo, consumindo-se num trabalho enfadonho, estéril, inútil, desprovido de sentido, numa ignota seção de uma empresa estatal inviabilizada pela inépcia e desinteresse.

Camaleoa, Dona Z acabou adquirindo a cor ambiente. Movendo-se orientada exclusivamente pela estratégia do êxito, assumiu os disfarces como um rosto verdadeiro e perdeu o passo. Dona Z construiu o seu status com os laços da hierarquia, enforcando neles qualquer amizade ou possibilidade de tangência. Sua posição: seu espaço de sofrer. Nele só a angústia medrou forte, densa, generosa.

Dona Z e seus planos de morar bem. Dona Z e seus planos de homem. Dona Z e a distância dos inferiores. Iludindo-se poderosa, não via que amante de chefe era assim: espécie de carro esporte, animal de estimação, coleção de selos.

Só, rosto colado à vidraça, vê na chuva a represa de lágrimas contidas graças a anos de experiência, sob o controle dos relógios e das migalhas que lhe atiravam ao leito. Contudo, Dona Z secou, definhou, acabou: impossível água em quem pedra, impossível vida em quem moeda. Dona Z é a menor parte de tudo aquilo que poderia ser. Suprimiu os olhos, mineralizou o sexo, amputou os sentimentos, pela ânsia, pela vontade absurda e absoluta de Poder.

À noite, pesadelos desprendiam-se do teto e caíam sobre o seu corpo envelhecido. As carnes flácidas movimentavam-se assustadas sob as cobertas. Morcegos com rostos de anjo vinham pedir-lhe o peito; animais pré-históricos intrometiam-se na vagina: nuvens de insetos tentavam arrastá-la da cama. Dona Z acordava aos gritos, acendia a luz, mas os fantasmas inundavam a noite de angústia e terror.

Pela manhã, ao entrar no elevador, seus olhos apresentavam manchas negras. Os funcionários olhavam maliciosamente. Imaginavam grandes orgias, bacanais com diretores. Não sabiam que Dona Z estava só. O corpo acabara. Acabara o poder.

Olhos eternas névoas. Vitral. Vidraça. Só, como sempre estivera. Enclausurada em triste e vão ofício, arrastava o peso das conveniências pelos sombrios corredores e escadarias intermináveis, onde sombras recurvadas pastavam rotina e submissão. Dona Z transitava por perigosos desvios. Corpo fora de forma. Animal enjaulado saudoso de planos e objetivos. Não mais o cortejo dos adoradores, a magia dos gabinetes. Dona Z não compreendia mais nada. Os olhos eternas névoas. Só, rosto colado à vidraça, revia paisagens da distante inocência. Um tempo e sua promessa. Algo se partiu na mente de Dona Z. Ruído de memória fraturada. Sabor de veneno nas palavras. Feras fora de jaulas. Limo sobre a pele. A gosma. A ruína.

De nada valera agarrar-se a serviços robotizantes. Fugitiva de si mesma, transformara o trabalho em ópio e, permanentemente alheia, sobrevivia com a alma cheia de remendos e lacunas. O preenchimento correto e sem rasuras do formulário TD.1 item dois alínea b do artigo três dois quatro de vinte de abril de não existiu. Dona Z e a correspondência. Dona Z e os contínuos. Dona Z e a máquina de escrever. Dona Z e o horário. Dona Z e a dieta. Dona Z e as promoções. E os anos passam, e passam os minutos por cima das carnes molengas, e passam os meses como insetos cavando rugas, e o tempo cava túneis no desejo, e o caminho sem retorno aproxima-se do seu termo.

Dona Z ainda se agüentara segurando muletas invisíveis. Enveredara pelo terreno do conformismo. Argumentara com fervor e resignação. Apelara para todos os espíritos. Peregrinara por terreiros, centros espíritas, igrejas e templos de todas as seitas. Acendera velas com o último fogo da esperança. Tentara construir-se estóica, firme, inabalável. Vestira-se de fatalista, liberta da dor e dos prazeres do mundo. Nada.

E se todos se unirem contra ela? E se quiserem ir às forras? E se a espancarem? E se roubarem as suas jóias? E se perder o emprego?

Dona Z era um açude sangrando. A incerteza corroera a precisão de sua fala. Até mesmo os gestos, rigorosamente construídos e profissionais, começaram a desmoronar. Evaporaram-se os sorrisos mecânicos, distribuídos nas ocasiões oportunas; os lânguidos olhares privativos de momentos intimistas com os chefes; a expressão austera e compenetrada de funcionária exemplar como disfarce eficaz. Suas cartas não apresentavam o mesmo grau de correção. A memória, prodígio que a todos assombrava, começara a claudicar: esquecia números de processos, trocava nomes de funcionários, errava telefones. Sua calma, proverbial na empresa, começara a decompor-se. Gesticulava nervosa, erguia a voz, irritava-se pelo motivo mais fútil. Já não chegava pontualmente às oito da manhã. Em todas as seções, os inimigos comentavam. Velhos desafetos caíam na sua pele. Rivais contavam os seus podres, impiedosas. Inimigos, inimigos por toda parte. O mundo só era habitado por cínicos e invejosos. O ser humano não valia nada. Dona Z sentia-se acuada. A humanidade não prestava.

Olhos eternas névoas. Lentes mentirosas inventando cores quentes num ambiente cinzento. Refração da luz. O côncavo e o convexo dos dias. O desvio – intransitável caminho. Sombras recurvadas pastam desânimo entre pilhas de papéis. O barulho de buzinas, máquinas e vozes humanas rege um balé de zumbis. Sinfonia do caos e do desconserto. Gigantesco coral em solidão maior. Sombras subservientes disputam um lugar ao sol. Dona Z descera aos porões da sua inquietude. Instalara a sua fábrica de dúvidas no interior de pensamentos sempre evitados. Dona Z sabia de criaturas despidas de muros, carregando futuro e solidariedade como luzes, mas não acreditava nas canções onde a vida é plenitude.

Dona Z não conseguia dormir. Desde a noite em que começara a sentir algo estranho em seu corpo – um cheiro insuportável a exalar quando se despia. Olhou-se no espelho do guarda-roupa. Mirou, remirou: nada. Aquilo prenunciava perigo. Teve a impressão de que a sua coluna fervia e uma corrente elétrica atravessava-lhe as vértebras.

Olhos eternas névoas. Dona Z, ao andar pelas seções, evitava se expor em demasia. Preferia ficar sentada em sua cadeira, ela, que adorava exibir as suas formas sedutoras por toda parte: ela, que se comprazia em despertar desejos em pobres coitados para entregar-se aos graus mais altos na hierarquia.

Todas as noites, ao despir-se, sentia o cheiro insuportável. No início, pensou existir alguma coisa estragada em casa, quem sabe algum bicho morto? Não obstante, o cheiro provinha do seu próprio corpo. Pensou em consultar um médico, assustada com a possibilidade de encontrar-se profundamente doente, contudo a vergonha tolhia a sua vontade. Talvez estivesse imaginando coisas. Cansaço ou medo, quem sabe?

Uma noite Dona Z descobriu o motivo dos seus sofrimentos. Estarrecida, não quis acreditar. Não era possível aceitar aquilo. Sua coluna, coisa espantosa!, tentava prolongar-se. O último ossinho irrompera pela carne afora, sangrando suas nádegas. Dona Z horrorizou-se. Chorou todos os seus choros. Desesperou-se nas mãos do infortúnio. Gritou aterrorizada, pulando sobre a cama, esmurrando-a, chutando-a com ódio, alucinada. Sua coluna teimava em crescer, teimava em sair do corpo e a dor ultrapassava todas as fronteiras.

Por uma chuvosa manhã carioca Dona Z passara angustiada. Após três dias de falta, ousara retornar ao serviço. Ninguém percebeu toda a tragédia que a abatia. Guardou a ferro e fogo o seu terrível segredo. Viera apressada, cabeça baixa, insegura.

À noite, inferno. Descobrira que o ossinho repartia-se em três. Uma pele já estava se formando sobre as feridas. Ela possuía, oh terror!, três pequenos rabinhos, de aproximadamente cinco centímetros cada. Além da pele, surgiam pêlos em todos eles. Nua frente ao espelho, não acreditava no que via.

Olhos eternas névoas colados à vidraça, descolados do mundo. Só, como sempre estivera, Dona Z contemplava a chuva. Cada pingo era uma parte do seu ser dissolvendo-se vertiginosamente. De rainha a ruína. De todo-poderosa a nulidade. Os cabelos embranquecendo. A dentadura. Os óculos. As mãos trêmulas. O andar pausado, convalescente. A pressão. O vidrinho e as pílulas. Os três rabinhos. Asco. Medo de que todos saibam. Monstruosidade. Pânico.

Nem se despia mais. As roupas permaneciam com as jóias. Vergonha e medo. Dona Z em extinção. Apenas sombra recurvada perambulando pela cela-repartição, etiquetando cadeados e ferrolhos. A Ordem comandando os nervos. A obediência ilimitada aos preceitos e regulamentos. O chefe. O subchefe. O candidato a chefe. A mulher do chefe. O filho do chefe. O cacete do chefe. O chefe do chefe. Dona Z elaborava o relatório de seus tormentos, desfazendo razões, traçando um quadro sombrio: os resultados negativos eram índices de uma alma no vermelho.

Só, rosto colado à vidraça, como sempre estivera. Pelos sombrios corredores e escadarias intermináveis pastavam sombras recurvadas de rotinas. Dona Z não acreditava nas luzes semeadoras do futuro. Dona Z – sombra recurvada – viera trabalhar normalmente. O mesmo ritual. O culto ao dever. As canções metálicas das calculadoras e máquinas de escrever, a geometria anêmica dos arquivos e a assepsia de um piso quase espelho. Como artesã, teceu com habilidade as minúcias do dia, satisfez as exigências: escreveu, leu, carimbou. Às dezessete horas, depois de ter arrumado as gavetas, pegou a sua bolsa e foi ao banheiro. Pela primeira vez na vida quebraria a rotina: sairia da empresa por outra porta.

INDAGAÇÕES A RESPEITO DE M
























INDAGAÇÕES A RESPEITO DE M


José Antônio Cavalcanti


Surpreso. Sim. Supresa. Depois de tanto tempo. É como se, de repente, tivesse percebido que houve apenas uma estranha construção: um muro sobre o terreno baldio de nossas vidas. E que estávamos encostados nele, exatamente na mesma posição, embora cada um um no seu lado. E as pedras frias nos silenciavam, enquanto deixávamos sem dor e/ou arrependimento chamuscos de carne e massa cinzenta espalhados em volta da nossa solidão.

Recordar o quê? Para quê? Lembro muito bem que você mascava chiclete e usava tênis, jeans e um suéter vermelho, de doer as vistas, quando os dragões vieram prendê-la e chicoteá-la; e que eu estava sentado, lendo um tratado sobre alquimia, no momento em que a sentença foi proferida. Ainda tentei reagir, atirei sintaxes sobre os jurados, reneguei a lógica doentia do mundo e compus um elogio ao pássaro suicida, em vão. De que adianta lembrar, re/ver, re/ler, re/volver?

Eu ia até dizer que foi um tempo ruim, todavia o tempo nunca foi, é, continua sendo e será, eterno amanhecendo no mundo, no mesmo instante de ir e de voltar, rompendo barreiras de uma apreensão didático-existencial da vida. O que preciso reconhecer, embora custe bastante, é que tornei-me em e com você; foi o seu hálito que inflou o espaço vazio entre a minha pele e a consciência. Nasci homem no bojo do seu corpo. Sim, um crescimento enorme acordar profundamente enriquecido com o quente de suas carnes viçosas incendiando o desejo; escrever desordenadamente sobre as linhas do seu corpo, sempre à espera de sinais e prodígios. Talvez nos amássemos, quem sabe? É bem verdade que nos recusamos teimosamente a pensar nisso. Havia um acordo tácito de não aprofundar nada, de não erigir eternidade em cima do que é provisório e precário, de fruir o momento, de morder a polpa macia do fruto proibido sem pensar no que pudesse acontecer no estômago. É bem possível que nos iludíssemos e, por trás de laços tão frágeis e inseguros, a vida movesse os seus de- dos no sentido de uma relação sem saída, algo de umbigo a umbigo; algo de junção, ponte; algo semelhante a casa com passarinhos, lunetas, mapas-múndi e filhos. Nunca pensamos no amor. Não iríamos sujar nossas esteiras pecaminosas com rótulos, frases feitas, discursos. O silêncio falaria por nós, sem racionalismos estéreis. O esperma ridicularizaria qualquer teoria, o riso apagaria qualquer explicação; os gestos seriam capazes de enevoar o pensamento e, de repente, restava apenas a vegetação intensamente verde transbordando dos seus olhos, falando de vida e perigo, de aventura e sossego, num tempo fora do tempo, no abismo do mundo.

É verdade que não nos deram alternativa, eu sei. O mundo sabe ser cruel. Sensação demal-estar profundo no vértice do gozo: uma campainha interrompendo o beijo; batidas violentas na porta, deslocando a mão em seu movimento amoroso. Confesso que fiquei paranóico. Hoje amar já não é o mesmo brinquedo. Sempre me ocorre a possibilidade de, subitamente, um carro atravessar a parede e arrebentar a gente na cama, ou sermos violentados por uma quadrilha no banheiro, ou acontecer um incêndio.

Falar agora é inútil. De nada adiantará preencher esse apartamento abandonado de palavras e palavras. Os móveis dizem muito e o aquário, onde um peixe morto há anos transformou-se em um sapo, é capaz de gritar. O discurso não reconstruirá M, a língua nada possui de mediúnica. Nem sei se vale a pena procurar fantasmas, devassar páginas de um diário inútil. Mas M será fruto da imaginação? Aonde foi M? Foi comprar cigarros ou à boutique Shazam? Que fizeram de M? Que fará M neste exato minuto? Às vezes penso que M está na cozinha de uma casa de um subúrbio distante, fazendo um pavoroso café, e se ela pudesse me ouvir me daria um esporro violento, diria que sou um machista-filho-da-puta irrecuperável e o diabo a quatro. Porque, na verdade, M estaria comendo borboletas e colocando um livro na vitrola, a fim de ouvir as visões mais delirantes da loucura. Porque M estaria agonizante na ponta de uma seringa. Porque M estaria assustadíssima, olhando a sua filha, e desesperada por não saber como ser mãe e o que fazer com aquela criatura nascida de um seu esquecimento, uma sua distração numa praia submersa na noite. Porque M estaria tão perdida quanto eu, arrastando todos os móveis para escorar a porta, procurando chaves e cadeados, fechando-se toda, com medo de novos dragões, com medo de um tempo em que discutia amor, poesia e revolução.

Jamais deveria ter voltado, essa re/volta, ler esse apartamento, re/ler sua história, tentar abraçar imagens, fadas, duendes. Nunca se pode compreender a separação que por si mesma não se decidiu, do que ainda não se esgotou, do que ainda é possível, do que sequer se juntou. Não posso abastecer-me do próprio veneno, nem devorar a minha cauda, nem suprimir a parte luminosa no meio desse desvio. Preciso de M e M está fora de mim, fora de si, extirpada do mundo, em outro mundo dentro desse mundo. As raízes cortadas pelos dragões, o amor bloqueado, o nosso ser-no-mundo todo fodido. E, agora, de nós dois resta apenas o resto que sou e cada vez mais vou assumindo o meu próprio vazio, e cada vez mais o meu rosto é este puro desespero de boneco ventríloco, escondido no poeta embriagado, desse boneco capaz de repetir palavras, desse papagaio de luxo que diverte e preenche o tédio de outros tantos bonecos vazios, nos quais a consistência do ser é nula, com os quais a verdade amanhece morta num ônibus lotado, num paletó-e-gravata-cedinho-na-luta. Invento palavras, coloco, sílaba após sílaba, a minha armadura vazia no oco do mundo, e me sustento de entrega e agonia, sangrando auroras pelo meio-dia, sentado no mmheiu-fyu, foRA dhi zinthonyA, fora de Rota, fora desforra de rumo/ramo/rima, porque M está perdida em Peixes e o meu signo é uma merda; porque M está vagando pelo pavilhão do Pinel e hoje não é dia de vis(i)ta arrasadora. Hoje não tem encontro de dor e hambúrguer, coca-cola e loucura. E preciso escamotear os meus sentimentos dentro de frases polidas: – Como está?, dona Isaura. Não se preocupe, M está bem melhor – e passo dias, noites, tentando ser agradável, simpático, educado: um rapazinho encantador. E só posso escrever M porque M mesmo é impossível, porque M agora não está em nenhum lugar do mundo e não adianta tentar me enganar com a voz de M vinda do quarto. E vou vôo inventando/inventariando sobre o vazio/vozerio da vida a mis(T)éria(O) d’arte: astúcia & manha, VERdaDE e MENTira, gozo y sufrimento. A arthe é um arte-feto, inútil boneco, uma piada repepetitidada. A artéria só se possibilita em M, seja lá o que M for.

Melhor não nem fechar a aorta. Abrir a artéria/porta para o outro lado de dentro do inferno. Melhor não fechar a torneira, abrir. E que tal quebrar todos os objetos? Ahn?! É uma boa idéia... Ah! Ah! Ah! Ahn?!... E de repente um uivórtice no quarto. I don’t understanding. Oh, no!... E como refazer o sentido desses tapetes/quadros/livros/discos/eletrodomésticos/roupas/papéis/papéis/papéis...

Ir enquanto é tempo. Deixar a porta aberta. Deixar o vento espalhar o gozo do fogo sobre os objetos. O último fósforo.

1979

segunda-feira, 25 de junho de 2007

DIA DE COMPRAS



DIA DE COMPRAS

José Antônio Cavalcanti


O cara veio correndo em desabalada carreira. Na pressa de fugir, ou de chegar, esbarrou na mulher de lenço na cabeça e derrubou as suas compras. A mulher não pôde conter o desespero e começou a chorar copiosamente por causa de sua impotência face a avidez de dezenas de mãos disputando latas de sardinha, de salsicha, bananas, sacos de açúcar, deter- gente, sabão em pó, goiabada e tantas coisas espalhadas por cima da caixa de ovos, esmaga- dos no afã de todos em pegar os alimentos e artigos de limpeza.

O cara já estava longe, dobrando uma esquina bem distante. A mulher tentou argumentar com o gerente. O gerente deu a entender que não tinha nada a ver com aquela histó
ria, portanto não o amolasse. A mulher recomeçou a chorar e a discutir em termos violentos com o homem intransigente. Formou-se um bolo ao redor dos dois, do que se aproveitou um molequinho franzino para roubar a bolsa da queixosa com alguns trocados remanescentes. O desespero da mulher alcançou proporções explosivas. Era lavadeira, mulher de um trabalhador da construção civil e tinha cinco filhos. Insistia no seu direito em pegar tudo que constava na nota da caixa número cinco em suas mãos trêmulas. O gerente, nervo- so com o escândalo, não arredava pé de sua intolerância.

Meia hora depois, a mulher já estava novamente com o carrinho cheio na fila. Queria que a empacotadora arrumasse tudo nas sacolas com rapidez porque ela não iria pagar outra vez e já se atrasara demais. O gerente disse que ia sim. Ela disse que ia não. O pessoal da fila protestou por ela ter ido direto à caixa número cinco. Justificou-se dizendo que não ia pagar, uma vez que as suas compras foram derrubadas, fizeram um arrasa-arrasa e, depois disso, um pivete tinha arrancado a sua bolsa. Alguns sorrisos irônicos e descrentes apareceram na fila. O gerente impediu que a menina empacotasse as compras da mulher de lenço na cabeça. Ela recomeçou a chorar. Implorou ao gerente, disse que o marido era muito ignorante, se ela chegasse em casa sem as compras e sem o dinheiro, ele iria falar que ela estava mentindo, que tinha outro homem. O gerente não tinha nada com isso. O pessoal da fila da caixa número cinco não tinha nada com isso. O vespeiro humano começou a vaiar a mulher. Uma negona corpulenta passou-lhe à frente no peito. A mulher de lenço na cabeça quis reclamar daquele atrevimento, porém o namorado da nega corpulenta deu-lhe uma porrada na nuca e a mulher caiu estatelada no chão brilhante do supermercado. As filas uni- ram-se em aplausos e piadas. Um engraçadinho quis tirar chinfra de gostoso e tentou ajudar a mulher, mas a segurança da casa já estava a postos e imobilizou o rapaz, retirando-o do meio do tumulto. Depois de descartar-se do intrujão, a segurança pegou a mulher de lenço na cabeça, que perdera as compras devido a um esbarrão fortuito, fora surrupiada por um pivete e esmurrada pelo macho da nega corpulenta, e arrastou-a para fora do supermercado. O gerente aproveitou a ocasião para fazer uma imperdível oferta-relâmpago, estratégia que permitiu-lhe chamar um camburão estacionado a poucos metros sem despertar grande interesse dos clientes. Ele conversou demoradamente com um pm. A mulher de lenço na cabeça tentou explicar a sua situação. Os pms não quiseram papo. Um, de bigodinho fino, passou-lhe uma rasteira e o outro, de óculos, mandou-a parar de palhaçada. O terceiro veio por trás e segurou a mulher de lenço na cabeça, colocando-a próxima à traseira do veículo, enquanto o de bigodinho fino abria a porta. A mulher começou a se apavorar e a protestar inocência, mas de nada lhe valeu. O de bigodinho deu-lhe um ruidoso telefone que sangrou os ouvidos, e o que tinha saído por último meteu-lhe um pontapé nas costas tão violento que jogou-a dentro do camburão. Os três acabaram o serviço, cumprimentaram a segurança do supermercado e receberam tapinhas do gerente.

FORA DE FORMA



FORA DE FORMA

José Antônio Cavalcanti

Plataforma apinhada. Massa compacta inflando a manhã morna e desanimada. Um coro enfurecido de putas que o pariu e filhos da puta faísca no ar. Contraponto a um fanhoso e rotineiro − “a composição destinada a D.Pedro II encontra-se avariada na estação de Pavuna. Próximo trem saindo de Belford Roxo”. Enevoado, olho escândalos em um jornal.

Nem sei como entrei. Felicidade. O jornal rasgado e um botão da camisa perdido. Arrastado pela multidão em selva escura habito. O corpo dissolvido em humano inferno, o suor naufraga todas as identidades. Minhas pernas, misturadas às outras, inviabilizam caminhos. Não sei qual a mão que remete ao meu ser. Divindade panteísta, sou milhares de olhos e bocas, salivando preces e imprecações.

A porta, a turma da porta. Preciso caminhar. Melhor a porta aberta, o vento no rosto, a promessa de abismo − irrecusável convite. Cotovelos em amplas barrigas ocas e convexas, expostas à fúria da minha fuga. Pés em chinelos são vítimas inermes de pressões brutais e covardes. Cabeçadas à direita e à esquerda em um mundo sem centro. E o revide anônimo e certeiro percutindo nas costas. Finalmente, a porta. Posso guardar escudo e gládio, transformar a couraça metálica em trapos esvoaçantes.

Entra e sai nas estações inumeráveis − Lesbos, Tróia, Pasárgada, Patmos... −, repetições de espaços aguardando supressão; núcleos de triagem de resíduos humanos onde se processa a alquímica conversão de flor em cobre e carvão. Renovação de retirantes entre o esperar e o ingressar sob a resina azul do céu. Ratos desmemoriados portando lanternas sem luz em trilhas que conduzem a laboratórios sinistros. Cobaias destinadas a um invento cuja fórmula transmuta-as em ouro. Milhares de ratos munidos de ração e sonolência invadem a manhã.

Melhor essa emoção suburbana de perito, esse folhetim de terceira classe, esse desafio aos deuses da velocidade, do que a ida ao forno em confortável abrigo, a ida ao logro sem sombra de perigo. Melhor o caminho sinuoso e longo, nele vejo pés sobre as janelas do trem. Loucos ambulantes da morte passeiam felicidade sobre os vagões. Entre fios e transgressão exercitam-se os bailarinos do caos. O fascínio da queda sem anjos e paraíso. Ao som do Lago dos cisnes, falseiam passos, apresentam números de mágica e digitam delírios, infernizando a vida autômata do lado de lá do Grande Vidro, onde almas pedestres hostilizam violinos.

Não hesito. Mãos sobre outras mãos-trampolins. Pés roçando ombros e cabelos alheios. Corpo quase flutuando. Ginástica improvisada entre tapas e xingamentos. E o mundo é muito mais do que um se deixar conduzir, um ser levado por. É uma verdadeira viagem. Agora sim, na galeria dos homens. Rito iniciático da arte kamikaze. Samurai de sombras e suspense. Entrego-me ao prazer de um lugar não destinado. Invasão e perversão do deslocar-se. Criação de um movimento real, livre das coordenadas que empurram trajetos e percursos aos seres e, externamente, determinam a cadência dos passos, o ritmo da respiração e todo o ritual do mover-se em direção a. Fora de lugar. A viagem enfim aventura, conquista de um mapa interior que me liberta da topografia imposta e permite atalhos, saltos, precipícios. A distância é um conceito alojado no meu olhar.

O mundo passa feroz. As casas voam. As pessoas explodem formas e cores em ritmo estonteante. Só nas estações flechas apunhalando vôos entusiastas da ordem, inimigos da imaginação e do balé dos homens livres, desfilam conselhos estéreis, súplicas teatrais, intimidações bolorentas. Eles, os comensais da hyerarchia, os incensadores da nova ordem.

Um tremor no corpo marca a precariedade do equilíbrio. Um calafrio a percorrer todos os membros e cujo epicentro aloja-se no estômago denuncia vestígios do medo. Fecho os olhos incontáveis vezes, enquanto as mãos seguram com desconhecida sofreguidão qualquer reentrância metálica. O rosto tangencia placas, sinais luminosos, postes, fios, passarelas, viadutos, tudo milimetricamente afastado.

Sobre a composição, uma assembléia de apóstolos da loucura traça um desenho inesperado e selvagem. Californianos negros desdentados, caubóis do morro da Lagartixa, louros carcomidos de perebas, branquelos heróis de seriados da televisão saltam e pulam emoções violentas com jubiloso acompanhamento de gritos, assobios e exclamações de“salve-se quem puder”. Tarzans, Rambos, Hulks, Robins Hoods, exército de zés e joões consumidos em sonhos colonizados, lançando vísceras e músculos sobre trilhos. Corpos mergulham por janelas rumo ao sem retorno. Quixotescos heróis minúsculos, pretos-forros do ‘vai fazer isso” e “vai fazer aquilo” subtraem espaço às notícias do mundo. Exército suburbano de libertação irracional. Dançarinos da fome, magricelas e cariados fantasmas num salto mortal entre vagões. Reaprendizado cruel do jogo da amarelinha. Nos caixões metálicos operários embalsamados trocam pisões, sarros e cotoveladas, permeados por pungas e conversas. O amontoado de seres ao gás de fábricas e escritórios. Lazer perpétuo aos exterminadores de baixadas fluminenses estrelas.

Também sou peregrino. O término da viagem é o santuário. Os templos impiedosos do século vinte erguem torres monumentais a um céu despovoado de misericórida. Só as viaturas da ordem, os códigos e as senhas de acesso, a distância de gestos e trânsito. A cidade-cartão postal por onde desliza essa carroça eletrometálica é um assustador jardim de alumínio, ferro e vidro; paraíso de guichês, mendigos e camelôs. A grande sucata-mor de um país não sei qual. Nela, papéis em ignota caligrafia nas mãos, autenticam passos em Tiradentes praças, Rio Branco avenidas, tantos e tais lugares, andares, salas xis e ipsilones. E mais: eletrônicos objetos digitais sonhando posse. Espaços onde fucionários anemizam sorrisos tão operacionais quanto idiotas. Contas. Dívidas. Anúncios. Jornais emprestados, colhidos ao chão. Mil jogos de ilusão povoando a vida de capoeiras e laser, engolidores de fogo e vídeos, cegos instrumentistas e samplers, mímicos e robôs, pomadas vendedores japoneses e pistolas automáticas.

Deslizo entre os vagões. Desligo razões. Pulo todos os degraus da insanidade. Xingo amãe dos passantes (farsantes?). Tiro o pau para fora e exibo o obelisco do pecado a cantorias protestantes e virtuoses de fim de semana. Estou fora do controle oficial. As leis são apenas registros que me aprisionam a uma vida miserável. Não há clemência. No mundo só existe polícia.

Repentinamente, paralisam o movimento. Podam a floração de instintos e poesia. Plataformas interditadas. Portas fechadas. Agentes de segurança ordenam, mentem, latem. Agora, uma multidão de zumbis vocifera de outras submersas plataformas:

− Porrada! Porrada! Porrada!

Os zumbis perdem a hora e o emprego, não perdem o sangue alheio. Precisam de uma certa dose de distração. Enlaçam-se aos pés de seus amos. Fazem salamaleques às autoridades e elegem, periodicamente, os seus coveiros. Os zumbis são tirânicos.

Ladrão! Veado! Seu merda!

A multidão adoça os meus ouvidos. Agora, entre os braços da lei, sinto-me seguro e protegido. Recebo uma cassetada quase na nuca, mas estou inteiro. Um guarda me acerta um chute na altura dos rins. Estou imensamente feliz! Mais uma cotovelada, um tapa, um soco, um pontapé, outro tapa... Sangro abundantemente pelo nariz... Mais uma cassetada... A lei me protege... Sou um cidadão, estou transbordando sangue e felicidade... A multidão me abriga... Retoma o seu lugar... Todos recolocam-me nos trilhos... Mais...

terça-feira, 19 de junho de 2007

AFNA















Bloqueado, Helio Oiticina, 1958

AFNA

José Antônio Cavalcanti


No primeiro dia em que estive na cidade de Afna, tudo foi monótono e enfadonho porque: a) não sabia o afnês; b) a cidade parecia estar complemente abandonada.

No segundo dia em que estive na cidade de Afna, tudo foi monótono e enfadonho porque: a) ainda não sabia falar o afnês; b) a cidade continuava um inquietante ponto de interrogação.

No terceiro dia em que estive na cidade de Afna, tudo foi monótono e enfadonho. a) ainda não sabia falar afnês (embora tivesse aprendido que muito obrigado, na língua local, era tri paktu; b) a cidade permanecia um inquietante ponto de interrogação; c) além de tudo, eu era o único hóspede do único hotel, propriedade do único habitante.

No quarto dia em que estive na cidade de Afna, aconteceram tantas coisas que fui compensado, com sobras, da monotonia dos três primeiros dias. Para começar, o dono do hotel, a quem até então julgara o único habitante, revelou-me ser a cidade povoada por cerca de dois milhões de pessoas, todas, no entanto, mostravam-se receosas com os visitantes, pois há milênios Afna não recebia viajantes. Contudo, como ele narrou-me em afnês e como não entendo patavina desse idioma, não pude entender nada, razão pela qual fui altamente confuso e contraditório ao dizer que o quarto dia não foi monótono e enfadonho. Seguramente, foi o mais monótono e enfadonho, uma vez que passei as vinte e quatro horas do dia escutando o dono do hotel narrar-me a história da cidade, ou a perguntar-me donde vinha, ou a contar-me piadas, ou a falar mal do governo, ou a oferecer-me garotas de programa e cocaína...

No quinto dia em que estive na cidade de Afna, o sol foi a única novidade, porém não bastou para tirar a chatice de ruas e praças vazias.

No sexto dia, escutei um disco muito bonito, uma música que ora parecia vir de fora, ora parecia sair do meu próprio cérebro. Um fato que despertou a minha curiosidade foi ter encontrado todas as tabuletas trocadas, alterados os nomes das ruas e das casas comerciais. Alguns edifícios também foram colocados fora de lugar da noite para o dia.

No sétimo dia, amanheci mais disposto: o sete, além de ser um número místico, também é o meu número de sorte. Estava tão esplêndida a manhã que rejeitei o café, aliás, um líquido vermelho de gosto horrível, servido com cogumelos. O sétimo dia foi só para consconstar: veio e foi embora a galope.

No oitavo dia em que estive em Afna, decidi que ele não poderia ser tão enjoado quanto os outros sete. Mesmo que não aparecesse ninguém, eu iria botar pra quebrar. Causaria um alvoroço tão grande, perturbaria tanto, que, fatalmente, alguém seria obrigado a tomar uma atitude mais drástica comigo. Naquele momento ficaria grato se alguns deles me agredissem. Ao sair do hotel, quebrei vidraças e continuei destruindo tudo à minha frente até sentir um gás forte e insuportável e, creio, desmaiei.

Acordei apenas no nono dia, completamente esgotado, nauseado. Escutei o barulho dos carros na rua, os gritos de crianças indo ou vindo das escolas, as pragas e os risos de gente trabalhando, apitos de guardas-de-trânsito e ruídos de toda espécie de máquina. Todavia, estava derreado, sem forças sequer para levantar-me até a janela, embora alegre por prever, no dia seguinte, o primeiro encontro com os meus semelhantes.

Veio o décimo dia e acordei bem aliviado, fiz a barba e desci para o saguão do hotel, olhando para os lados, na tentativa de vislumbar uma pessoa qualquer. Triste recepção, apenas o dono do hotel falando sem parar. As ruas estavam tão desertas quanto nos dias anteriores. As lojas, fechadas. Ninguém. Ninguém. Ninguém. O dono do hotel disse-me que tinham saído em férias e foram para o campo e para os balneários, mas ele não poderia ter falado isso. Eu não poderia entendê-lo. Isso não passa de história de viajante.

No décimo-primeiro dia, fiz as minhas malas e tomei a direção do aeroporto, depois de dar mil e uma voltas pela cidade, graças à balbúrdia de placas e sinais de trânsito. Embarquei no avião e jurei a mim mesmo nunca mais pôr os meus pés na cidade de Afna. Antes de o avião levantar vôo, pude ver o movimento do aeroporto, o entrar e sair de pessoas, os mecânicos, os carregadores, os passageiros das outras aeronaves, os automóveis nas ruas e avenidas adjacentes...