terça-feira, 26 de junho de 2007

RUPTURA













Tripthych - Studies from de Human Body - 1970 - Francis Bacon

RUPTURA

José Antônio Cavalcanti

Só, rosto colado à vidraça, na muda contemplação da chuva, sonhava outros tempos, pródigos em esperanças. A chuva, indiferente, caía miúda e persistente. Dona Z não via mais as sombras úmidas por trás do vidro. Seus olhos pareciam um estranho vitral projetado para o passado um território apascentando túmulos secretos onde apodreciam grandiosos projetos de vida.

Só, como sempre estivera, mesmo ao lado daqueles que saquearam o seu corpo em busca de prazer, observava os seus cacos espalhados por cima da mobília e uma sombrinha abrindo seu colorido desanimado a um canto da sala.

Já não olhava através do vidro embaçado pela sua respiração forte e ritmada. Distraída, vagava lentamente entre mesas e arquivos, guiando a matilha de sonhos encurralados no cubo geométrico da rotina.

Nos corredores, quando passava, cochichos. Diziam que ela era..., que ela fora..., que ela fizera... E não podia deixar de magoar-se com risos abafados denunciando intrigas e calúnias. No entanto, temiam-na. Sabiam dos seus grandes poderes: manejara homens, domara chefes, destruíra carreiras. Agora, ao caminhar despojada de trunfos, diminuída em seu prestígio, onde, outrora, tantas vezes desfilara arrogância, resultavam ridículas as jóias espalhadas pelo corpo, a roupa forçando formas que ameaçavam se esfarelar. Sim, os seios murchos, sustentados à força da astúcia feminina, as nádegas mambembes, as pernas enxameadas de varizes, ocultas à custa de mil estratagemas, faziam ressurgir a impiedade dos inimigos, as piadas cruéis, as estórias obscenas. Sim, por trás, todos riam. Não obstante, vista de frente, Dona Z ainda impunha respeito: a ostentação de um passado em que o poder transitava por seu corpo permanecia viva nas paredes, nos documentos e na pele dos subalternos.

Só, rosto colado à vidraça, na inquietação transparente dos olhos, contemplava a chuva, líquida cortina a fechar o pano de outros tempos.

A aposentadoria ameaçava invadir os limites do seu ser. A sensação de inutilidade, de ser traste, objeto a ser abandonado, crescia. Um mal-estar horrível o descobrir-se sucata desesquecida entre máquinas, mesas, arquivos, papéis, carimbos, armários, paredes, documentos perdidos como as esperanças perdidas em tantos anos de vida. Anos de morte. Sim, de morte. Com todas as minúcias da burocracia, com todas as exigências impostas pelas necessidades e pelo absurdo. Uma morte vivida em toda a sua formalidade de assinar ponto, preencher de tédio formulários, preparar ofícios ao nada, minutar a dor de todo dia exalando solidão pelos poros. Morte semelhante à sua dissolução entre lençóis e mentiras, sob os quais o gozo era um passo rumo a um futuro melhor, cujas promessas de dinheiro e influência inflaram os olhos e aumentaram a sede de Dona Z: ex-datilógrafa inexperiente oriunda dos conselhos maternos para os perigos do mundo, consumindo-se num trabalho enfadonho, estéril, inútil, desprovido de sentido, numa ignota seção de uma empresa estatal inviabilizada pela inépcia e desinteresse.

Camaleoa, Dona Z acabou adquirindo a cor ambiente. Movendo-se orientada exclusivamente pela estratégia do êxito, assumiu os disfarces como um rosto verdadeiro e perdeu o passo. Dona Z construiu o seu status com os laços da hierarquia, enforcando neles qualquer amizade ou possibilidade de tangência. Sua posição: seu espaço de sofrer. Nele só a angústia medrou forte, densa, generosa.

Dona Z e seus planos de morar bem. Dona Z e seus planos de homem. Dona Z e a distância dos inferiores. Iludindo-se poderosa, não via que amante de chefe era assim: espécie de carro esporte, animal de estimação, coleção de selos.

Só, rosto colado à vidraça, vê na chuva a represa de lágrimas contidas graças a anos de experiência, sob o controle dos relógios e das migalhas que lhe atiravam ao leito. Contudo, Dona Z secou, definhou, acabou: impossível água em quem pedra, impossível vida em quem moeda. Dona Z é a menor parte de tudo aquilo que poderia ser. Suprimiu os olhos, mineralizou o sexo, amputou os sentimentos, pela ânsia, pela vontade absurda e absoluta de Poder.

À noite, pesadelos desprendiam-se do teto e caíam sobre o seu corpo envelhecido. As carnes flácidas movimentavam-se assustadas sob as cobertas. Morcegos com rostos de anjo vinham pedir-lhe o peito; animais pré-históricos intrometiam-se na vagina: nuvens de insetos tentavam arrastá-la da cama. Dona Z acordava aos gritos, acendia a luz, mas os fantasmas inundavam a noite de angústia e terror.

Pela manhã, ao entrar no elevador, seus olhos apresentavam manchas negras. Os funcionários olhavam maliciosamente. Imaginavam grandes orgias, bacanais com diretores. Não sabiam que Dona Z estava só. O corpo acabara. Acabara o poder.

Olhos eternas névoas. Vitral. Vidraça. Só, como sempre estivera. Enclausurada em triste e vão ofício, arrastava o peso das conveniências pelos sombrios corredores e escadarias intermináveis, onde sombras recurvadas pastavam rotina e submissão. Dona Z transitava por perigosos desvios. Corpo fora de forma. Animal enjaulado saudoso de planos e objetivos. Não mais o cortejo dos adoradores, a magia dos gabinetes. Dona Z não compreendia mais nada. Os olhos eternas névoas. Só, rosto colado à vidraça, revia paisagens da distante inocência. Um tempo e sua promessa. Algo se partiu na mente de Dona Z. Ruído de memória fraturada. Sabor de veneno nas palavras. Feras fora de jaulas. Limo sobre a pele. A gosma. A ruína.

De nada valera agarrar-se a serviços robotizantes. Fugitiva de si mesma, transformara o trabalho em ópio e, permanentemente alheia, sobrevivia com a alma cheia de remendos e lacunas. O preenchimento correto e sem rasuras do formulário TD.1 item dois alínea b do artigo três dois quatro de vinte de abril de não existiu. Dona Z e a correspondência. Dona Z e os contínuos. Dona Z e a máquina de escrever. Dona Z e o horário. Dona Z e a dieta. Dona Z e as promoções. E os anos passam, e passam os minutos por cima das carnes molengas, e passam os meses como insetos cavando rugas, e o tempo cava túneis no desejo, e o caminho sem retorno aproxima-se do seu termo.

Dona Z ainda se agüentara segurando muletas invisíveis. Enveredara pelo terreno do conformismo. Argumentara com fervor e resignação. Apelara para todos os espíritos. Peregrinara por terreiros, centros espíritas, igrejas e templos de todas as seitas. Acendera velas com o último fogo da esperança. Tentara construir-se estóica, firme, inabalável. Vestira-se de fatalista, liberta da dor e dos prazeres do mundo. Nada.

E se todos se unirem contra ela? E se quiserem ir às forras? E se a espancarem? E se roubarem as suas jóias? E se perder o emprego?

Dona Z era um açude sangrando. A incerteza corroera a precisão de sua fala. Até mesmo os gestos, rigorosamente construídos e profissionais, começaram a desmoronar. Evaporaram-se os sorrisos mecânicos, distribuídos nas ocasiões oportunas; os lânguidos olhares privativos de momentos intimistas com os chefes; a expressão austera e compenetrada de funcionária exemplar como disfarce eficaz. Suas cartas não apresentavam o mesmo grau de correção. A memória, prodígio que a todos assombrava, começara a claudicar: esquecia números de processos, trocava nomes de funcionários, errava telefones. Sua calma, proverbial na empresa, começara a decompor-se. Gesticulava nervosa, erguia a voz, irritava-se pelo motivo mais fútil. Já não chegava pontualmente às oito da manhã. Em todas as seções, os inimigos comentavam. Velhos desafetos caíam na sua pele. Rivais contavam os seus podres, impiedosas. Inimigos, inimigos por toda parte. O mundo só era habitado por cínicos e invejosos. O ser humano não valia nada. Dona Z sentia-se acuada. A humanidade não prestava.

Olhos eternas névoas. Lentes mentirosas inventando cores quentes num ambiente cinzento. Refração da luz. O côncavo e o convexo dos dias. O desvio – intransitável caminho. Sombras recurvadas pastam desânimo entre pilhas de papéis. O barulho de buzinas, máquinas e vozes humanas rege um balé de zumbis. Sinfonia do caos e do desconserto. Gigantesco coral em solidão maior. Sombras subservientes disputam um lugar ao sol. Dona Z descera aos porões da sua inquietude. Instalara a sua fábrica de dúvidas no interior de pensamentos sempre evitados. Dona Z sabia de criaturas despidas de muros, carregando futuro e solidariedade como luzes, mas não acreditava nas canções onde a vida é plenitude.

Dona Z não conseguia dormir. Desde a noite em que começara a sentir algo estranho em seu corpo – um cheiro insuportável a exalar quando se despia. Olhou-se no espelho do guarda-roupa. Mirou, remirou: nada. Aquilo prenunciava perigo. Teve a impressão de que a sua coluna fervia e uma corrente elétrica atravessava-lhe as vértebras.

Olhos eternas névoas. Dona Z, ao andar pelas seções, evitava se expor em demasia. Preferia ficar sentada em sua cadeira, ela, que adorava exibir as suas formas sedutoras por toda parte: ela, que se comprazia em despertar desejos em pobres coitados para entregar-se aos graus mais altos na hierarquia.

Todas as noites, ao despir-se, sentia o cheiro insuportável. No início, pensou existir alguma coisa estragada em casa, quem sabe algum bicho morto? Não obstante, o cheiro provinha do seu próprio corpo. Pensou em consultar um médico, assustada com a possibilidade de encontrar-se profundamente doente, contudo a vergonha tolhia a sua vontade. Talvez estivesse imaginando coisas. Cansaço ou medo, quem sabe?

Uma noite Dona Z descobriu o motivo dos seus sofrimentos. Estarrecida, não quis acreditar. Não era possível aceitar aquilo. Sua coluna, coisa espantosa!, tentava prolongar-se. O último ossinho irrompera pela carne afora, sangrando suas nádegas. Dona Z horrorizou-se. Chorou todos os seus choros. Desesperou-se nas mãos do infortúnio. Gritou aterrorizada, pulando sobre a cama, esmurrando-a, chutando-a com ódio, alucinada. Sua coluna teimava em crescer, teimava em sair do corpo e a dor ultrapassava todas as fronteiras.

Por uma chuvosa manhã carioca Dona Z passara angustiada. Após três dias de falta, ousara retornar ao serviço. Ninguém percebeu toda a tragédia que a abatia. Guardou a ferro e fogo o seu terrível segredo. Viera apressada, cabeça baixa, insegura.

À noite, inferno. Descobrira que o ossinho repartia-se em três. Uma pele já estava se formando sobre as feridas. Ela possuía, oh terror!, três pequenos rabinhos, de aproximadamente cinco centímetros cada. Além da pele, surgiam pêlos em todos eles. Nua frente ao espelho, não acreditava no que via.

Olhos eternas névoas colados à vidraça, descolados do mundo. Só, como sempre estivera, Dona Z contemplava a chuva. Cada pingo era uma parte do seu ser dissolvendo-se vertiginosamente. De rainha a ruína. De todo-poderosa a nulidade. Os cabelos embranquecendo. A dentadura. Os óculos. As mãos trêmulas. O andar pausado, convalescente. A pressão. O vidrinho e as pílulas. Os três rabinhos. Asco. Medo de que todos saibam. Monstruosidade. Pânico.

Nem se despia mais. As roupas permaneciam com as jóias. Vergonha e medo. Dona Z em extinção. Apenas sombra recurvada perambulando pela cela-repartição, etiquetando cadeados e ferrolhos. A Ordem comandando os nervos. A obediência ilimitada aos preceitos e regulamentos. O chefe. O subchefe. O candidato a chefe. A mulher do chefe. O filho do chefe. O cacete do chefe. O chefe do chefe. Dona Z elaborava o relatório de seus tormentos, desfazendo razões, traçando um quadro sombrio: os resultados negativos eram índices de uma alma no vermelho.

Só, rosto colado à vidraça, como sempre estivera. Pelos sombrios corredores e escadarias intermináveis pastavam sombras recurvadas de rotinas. Dona Z não acreditava nas luzes semeadoras do futuro. Dona Z – sombra recurvada – viera trabalhar normalmente. O mesmo ritual. O culto ao dever. As canções metálicas das calculadoras e máquinas de escrever, a geometria anêmica dos arquivos e a assepsia de um piso quase espelho. Como artesã, teceu com habilidade as minúcias do dia, satisfez as exigências: escreveu, leu, carimbou. Às dezessete horas, depois de ter arrumado as gavetas, pegou a sua bolsa e foi ao banheiro. Pela primeira vez na vida quebraria a rotina: sairia da empresa por outra porta.

INDAGAÇÕES A RESPEITO DE M
























INDAGAÇÕES A RESPEITO DE M


José Antônio Cavalcanti


Surpreso. Sim. Supresa. Depois de tanto tempo. É como se, de repente, tivesse percebido que houve apenas uma estranha construção: um muro sobre o terreno baldio de nossas vidas. E que estávamos encostados nele, exatamente na mesma posição, embora cada um um no seu lado. E as pedras frias nos silenciavam, enquanto deixávamos sem dor e/ou arrependimento chamuscos de carne e massa cinzenta espalhados em volta da nossa solidão.

Recordar o quê? Para quê? Lembro muito bem que você mascava chiclete e usava tênis, jeans e um suéter vermelho, de doer as vistas, quando os dragões vieram prendê-la e chicoteá-la; e que eu estava sentado, lendo um tratado sobre alquimia, no momento em que a sentença foi proferida. Ainda tentei reagir, atirei sintaxes sobre os jurados, reneguei a lógica doentia do mundo e compus um elogio ao pássaro suicida, em vão. De que adianta lembrar, re/ver, re/ler, re/volver?

Eu ia até dizer que foi um tempo ruim, todavia o tempo nunca foi, é, continua sendo e será, eterno amanhecendo no mundo, no mesmo instante de ir e de voltar, rompendo barreiras de uma apreensão didático-existencial da vida. O que preciso reconhecer, embora custe bastante, é que tornei-me em e com você; foi o seu hálito que inflou o espaço vazio entre a minha pele e a consciência. Nasci homem no bojo do seu corpo. Sim, um crescimento enorme acordar profundamente enriquecido com o quente de suas carnes viçosas incendiando o desejo; escrever desordenadamente sobre as linhas do seu corpo, sempre à espera de sinais e prodígios. Talvez nos amássemos, quem sabe? É bem verdade que nos recusamos teimosamente a pensar nisso. Havia um acordo tácito de não aprofundar nada, de não erigir eternidade em cima do que é provisório e precário, de fruir o momento, de morder a polpa macia do fruto proibido sem pensar no que pudesse acontecer no estômago. É bem possível que nos iludíssemos e, por trás de laços tão frágeis e inseguros, a vida movesse os seus de- dos no sentido de uma relação sem saída, algo de umbigo a umbigo; algo de junção, ponte; algo semelhante a casa com passarinhos, lunetas, mapas-múndi e filhos. Nunca pensamos no amor. Não iríamos sujar nossas esteiras pecaminosas com rótulos, frases feitas, discursos. O silêncio falaria por nós, sem racionalismos estéreis. O esperma ridicularizaria qualquer teoria, o riso apagaria qualquer explicação; os gestos seriam capazes de enevoar o pensamento e, de repente, restava apenas a vegetação intensamente verde transbordando dos seus olhos, falando de vida e perigo, de aventura e sossego, num tempo fora do tempo, no abismo do mundo.

É verdade que não nos deram alternativa, eu sei. O mundo sabe ser cruel. Sensação demal-estar profundo no vértice do gozo: uma campainha interrompendo o beijo; batidas violentas na porta, deslocando a mão em seu movimento amoroso. Confesso que fiquei paranóico. Hoje amar já não é o mesmo brinquedo. Sempre me ocorre a possibilidade de, subitamente, um carro atravessar a parede e arrebentar a gente na cama, ou sermos violentados por uma quadrilha no banheiro, ou acontecer um incêndio.

Falar agora é inútil. De nada adiantará preencher esse apartamento abandonado de palavras e palavras. Os móveis dizem muito e o aquário, onde um peixe morto há anos transformou-se em um sapo, é capaz de gritar. O discurso não reconstruirá M, a língua nada possui de mediúnica. Nem sei se vale a pena procurar fantasmas, devassar páginas de um diário inútil. Mas M será fruto da imaginação? Aonde foi M? Foi comprar cigarros ou à boutique Shazam? Que fizeram de M? Que fará M neste exato minuto? Às vezes penso que M está na cozinha de uma casa de um subúrbio distante, fazendo um pavoroso café, e se ela pudesse me ouvir me daria um esporro violento, diria que sou um machista-filho-da-puta irrecuperável e o diabo a quatro. Porque, na verdade, M estaria comendo borboletas e colocando um livro na vitrola, a fim de ouvir as visões mais delirantes da loucura. Porque M estaria agonizante na ponta de uma seringa. Porque M estaria assustadíssima, olhando a sua filha, e desesperada por não saber como ser mãe e o que fazer com aquela criatura nascida de um seu esquecimento, uma sua distração numa praia submersa na noite. Porque M estaria tão perdida quanto eu, arrastando todos os móveis para escorar a porta, procurando chaves e cadeados, fechando-se toda, com medo de novos dragões, com medo de um tempo em que discutia amor, poesia e revolução.

Jamais deveria ter voltado, essa re/volta, ler esse apartamento, re/ler sua história, tentar abraçar imagens, fadas, duendes. Nunca se pode compreender a separação que por si mesma não se decidiu, do que ainda não se esgotou, do que ainda é possível, do que sequer se juntou. Não posso abastecer-me do próprio veneno, nem devorar a minha cauda, nem suprimir a parte luminosa no meio desse desvio. Preciso de M e M está fora de mim, fora de si, extirpada do mundo, em outro mundo dentro desse mundo. As raízes cortadas pelos dragões, o amor bloqueado, o nosso ser-no-mundo todo fodido. E, agora, de nós dois resta apenas o resto que sou e cada vez mais vou assumindo o meu próprio vazio, e cada vez mais o meu rosto é este puro desespero de boneco ventríloco, escondido no poeta embriagado, desse boneco capaz de repetir palavras, desse papagaio de luxo que diverte e preenche o tédio de outros tantos bonecos vazios, nos quais a consistência do ser é nula, com os quais a verdade amanhece morta num ônibus lotado, num paletó-e-gravata-cedinho-na-luta. Invento palavras, coloco, sílaba após sílaba, a minha armadura vazia no oco do mundo, e me sustento de entrega e agonia, sangrando auroras pelo meio-dia, sentado no mmheiu-fyu, foRA dhi zinthonyA, fora de Rota, fora desforra de rumo/ramo/rima, porque M está perdida em Peixes e o meu signo é uma merda; porque M está vagando pelo pavilhão do Pinel e hoje não é dia de vis(i)ta arrasadora. Hoje não tem encontro de dor e hambúrguer, coca-cola e loucura. E preciso escamotear os meus sentimentos dentro de frases polidas: – Como está?, dona Isaura. Não se preocupe, M está bem melhor – e passo dias, noites, tentando ser agradável, simpático, educado: um rapazinho encantador. E só posso escrever M porque M mesmo é impossível, porque M agora não está em nenhum lugar do mundo e não adianta tentar me enganar com a voz de M vinda do quarto. E vou vôo inventando/inventariando sobre o vazio/vozerio da vida a mis(T)éria(O) d’arte: astúcia & manha, VERdaDE e MENTira, gozo y sufrimento. A arthe é um arte-feto, inútil boneco, uma piada repepetitidada. A artéria só se possibilita em M, seja lá o que M for.

Melhor não nem fechar a aorta. Abrir a artéria/porta para o outro lado de dentro do inferno. Melhor não fechar a torneira, abrir. E que tal quebrar todos os objetos? Ahn?! É uma boa idéia... Ah! Ah! Ah! Ahn?!... E de repente um uivórtice no quarto. I don’t understanding. Oh, no!... E como refazer o sentido desses tapetes/quadros/livros/discos/eletrodomésticos/roupas/papéis/papéis/papéis...

Ir enquanto é tempo. Deixar a porta aberta. Deixar o vento espalhar o gozo do fogo sobre os objetos. O último fósforo.

1979

segunda-feira, 25 de junho de 2007

DIA DE COMPRAS



DIA DE COMPRAS

José Antônio Cavalcanti


O cara veio correndo em desabalada carreira. Na pressa de fugir, ou de chegar, esbarrou na mulher de lenço na cabeça e derrubou as suas compras. A mulher não pôde conter o desespero e começou a chorar copiosamente por causa de sua impotência face a avidez de dezenas de mãos disputando latas de sardinha, de salsicha, bananas, sacos de açúcar, deter- gente, sabão em pó, goiabada e tantas coisas espalhadas por cima da caixa de ovos, esmaga- dos no afã de todos em pegar os alimentos e artigos de limpeza.

O cara já estava longe, dobrando uma esquina bem distante. A mulher tentou argumentar com o gerente. O gerente deu a entender que não tinha nada a ver com aquela histó
ria, portanto não o amolasse. A mulher recomeçou a chorar e a discutir em termos violentos com o homem intransigente. Formou-se um bolo ao redor dos dois, do que se aproveitou um molequinho franzino para roubar a bolsa da queixosa com alguns trocados remanescentes. O desespero da mulher alcançou proporções explosivas. Era lavadeira, mulher de um trabalhador da construção civil e tinha cinco filhos. Insistia no seu direito em pegar tudo que constava na nota da caixa número cinco em suas mãos trêmulas. O gerente, nervo- so com o escândalo, não arredava pé de sua intolerância.

Meia hora depois, a mulher já estava novamente com o carrinho cheio na fila. Queria que a empacotadora arrumasse tudo nas sacolas com rapidez porque ela não iria pagar outra vez e já se atrasara demais. O gerente disse que ia sim. Ela disse que ia não. O pessoal da fila protestou por ela ter ido direto à caixa número cinco. Justificou-se dizendo que não ia pagar, uma vez que as suas compras foram derrubadas, fizeram um arrasa-arrasa e, depois disso, um pivete tinha arrancado a sua bolsa. Alguns sorrisos irônicos e descrentes apareceram na fila. O gerente impediu que a menina empacotasse as compras da mulher de lenço na cabeça. Ela recomeçou a chorar. Implorou ao gerente, disse que o marido era muito ignorante, se ela chegasse em casa sem as compras e sem o dinheiro, ele iria falar que ela estava mentindo, que tinha outro homem. O gerente não tinha nada com isso. O pessoal da fila da caixa número cinco não tinha nada com isso. O vespeiro humano começou a vaiar a mulher. Uma negona corpulenta passou-lhe à frente no peito. A mulher de lenço na cabeça quis reclamar daquele atrevimento, porém o namorado da nega corpulenta deu-lhe uma porrada na nuca e a mulher caiu estatelada no chão brilhante do supermercado. As filas uni- ram-se em aplausos e piadas. Um engraçadinho quis tirar chinfra de gostoso e tentou ajudar a mulher, mas a segurança da casa já estava a postos e imobilizou o rapaz, retirando-o do meio do tumulto. Depois de descartar-se do intrujão, a segurança pegou a mulher de lenço na cabeça, que perdera as compras devido a um esbarrão fortuito, fora surrupiada por um pivete e esmurrada pelo macho da nega corpulenta, e arrastou-a para fora do supermercado. O gerente aproveitou a ocasião para fazer uma imperdível oferta-relâmpago, estratégia que permitiu-lhe chamar um camburão estacionado a poucos metros sem despertar grande interesse dos clientes. Ele conversou demoradamente com um pm. A mulher de lenço na cabeça tentou explicar a sua situação. Os pms não quiseram papo. Um, de bigodinho fino, passou-lhe uma rasteira e o outro, de óculos, mandou-a parar de palhaçada. O terceiro veio por trás e segurou a mulher de lenço na cabeça, colocando-a próxima à traseira do veículo, enquanto o de bigodinho fino abria a porta. A mulher começou a se apavorar e a protestar inocência, mas de nada lhe valeu. O de bigodinho deu-lhe um ruidoso telefone que sangrou os ouvidos, e o que tinha saído por último meteu-lhe um pontapé nas costas tão violento que jogou-a dentro do camburão. Os três acabaram o serviço, cumprimentaram a segurança do supermercado e receberam tapinhas do gerente.

FORA DE FORMA



FORA DE FORMA

José Antônio Cavalcanti

Plataforma apinhada. Massa compacta inflando a manhã morna e desanimada. Um coro enfurecido de putas que o pariu e filhos da puta faísca no ar. Contraponto a um fanhoso e rotineiro − “a composição destinada a D.Pedro II encontra-se avariada na estação de Pavuna. Próximo trem saindo de Belford Roxo”. Enevoado, olho escândalos em um jornal.

Nem sei como entrei. Felicidade. O jornal rasgado e um botão da camisa perdido. Arrastado pela multidão em selva escura habito. O corpo dissolvido em humano inferno, o suor naufraga todas as identidades. Minhas pernas, misturadas às outras, inviabilizam caminhos. Não sei qual a mão que remete ao meu ser. Divindade panteísta, sou milhares de olhos e bocas, salivando preces e imprecações.

A porta, a turma da porta. Preciso caminhar. Melhor a porta aberta, o vento no rosto, a promessa de abismo − irrecusável convite. Cotovelos em amplas barrigas ocas e convexas, expostas à fúria da minha fuga. Pés em chinelos são vítimas inermes de pressões brutais e covardes. Cabeçadas à direita e à esquerda em um mundo sem centro. E o revide anônimo e certeiro percutindo nas costas. Finalmente, a porta. Posso guardar escudo e gládio, transformar a couraça metálica em trapos esvoaçantes.

Entra e sai nas estações inumeráveis − Lesbos, Tróia, Pasárgada, Patmos... −, repetições de espaços aguardando supressão; núcleos de triagem de resíduos humanos onde se processa a alquímica conversão de flor em cobre e carvão. Renovação de retirantes entre o esperar e o ingressar sob a resina azul do céu. Ratos desmemoriados portando lanternas sem luz em trilhas que conduzem a laboratórios sinistros. Cobaias destinadas a um invento cuja fórmula transmuta-as em ouro. Milhares de ratos munidos de ração e sonolência invadem a manhã.

Melhor essa emoção suburbana de perito, esse folhetim de terceira classe, esse desafio aos deuses da velocidade, do que a ida ao forno em confortável abrigo, a ida ao logro sem sombra de perigo. Melhor o caminho sinuoso e longo, nele vejo pés sobre as janelas do trem. Loucos ambulantes da morte passeiam felicidade sobre os vagões. Entre fios e transgressão exercitam-se os bailarinos do caos. O fascínio da queda sem anjos e paraíso. Ao som do Lago dos cisnes, falseiam passos, apresentam números de mágica e digitam delírios, infernizando a vida autômata do lado de lá do Grande Vidro, onde almas pedestres hostilizam violinos.

Não hesito. Mãos sobre outras mãos-trampolins. Pés roçando ombros e cabelos alheios. Corpo quase flutuando. Ginástica improvisada entre tapas e xingamentos. E o mundo é muito mais do que um se deixar conduzir, um ser levado por. É uma verdadeira viagem. Agora sim, na galeria dos homens. Rito iniciático da arte kamikaze. Samurai de sombras e suspense. Entrego-me ao prazer de um lugar não destinado. Invasão e perversão do deslocar-se. Criação de um movimento real, livre das coordenadas que empurram trajetos e percursos aos seres e, externamente, determinam a cadência dos passos, o ritmo da respiração e todo o ritual do mover-se em direção a. Fora de lugar. A viagem enfim aventura, conquista de um mapa interior que me liberta da topografia imposta e permite atalhos, saltos, precipícios. A distância é um conceito alojado no meu olhar.

O mundo passa feroz. As casas voam. As pessoas explodem formas e cores em ritmo estonteante. Só nas estações flechas apunhalando vôos entusiastas da ordem, inimigos da imaginação e do balé dos homens livres, desfilam conselhos estéreis, súplicas teatrais, intimidações bolorentas. Eles, os comensais da hyerarchia, os incensadores da nova ordem.

Um tremor no corpo marca a precariedade do equilíbrio. Um calafrio a percorrer todos os membros e cujo epicentro aloja-se no estômago denuncia vestígios do medo. Fecho os olhos incontáveis vezes, enquanto as mãos seguram com desconhecida sofreguidão qualquer reentrância metálica. O rosto tangencia placas, sinais luminosos, postes, fios, passarelas, viadutos, tudo milimetricamente afastado.

Sobre a composição, uma assembléia de apóstolos da loucura traça um desenho inesperado e selvagem. Californianos negros desdentados, caubóis do morro da Lagartixa, louros carcomidos de perebas, branquelos heróis de seriados da televisão saltam e pulam emoções violentas com jubiloso acompanhamento de gritos, assobios e exclamações de“salve-se quem puder”. Tarzans, Rambos, Hulks, Robins Hoods, exército de zés e joões consumidos em sonhos colonizados, lançando vísceras e músculos sobre trilhos. Corpos mergulham por janelas rumo ao sem retorno. Quixotescos heróis minúsculos, pretos-forros do ‘vai fazer isso” e “vai fazer aquilo” subtraem espaço às notícias do mundo. Exército suburbano de libertação irracional. Dançarinos da fome, magricelas e cariados fantasmas num salto mortal entre vagões. Reaprendizado cruel do jogo da amarelinha. Nos caixões metálicos operários embalsamados trocam pisões, sarros e cotoveladas, permeados por pungas e conversas. O amontoado de seres ao gás de fábricas e escritórios. Lazer perpétuo aos exterminadores de baixadas fluminenses estrelas.

Também sou peregrino. O término da viagem é o santuário. Os templos impiedosos do século vinte erguem torres monumentais a um céu despovoado de misericórida. Só as viaturas da ordem, os códigos e as senhas de acesso, a distância de gestos e trânsito. A cidade-cartão postal por onde desliza essa carroça eletrometálica é um assustador jardim de alumínio, ferro e vidro; paraíso de guichês, mendigos e camelôs. A grande sucata-mor de um país não sei qual. Nela, papéis em ignota caligrafia nas mãos, autenticam passos em Tiradentes praças, Rio Branco avenidas, tantos e tais lugares, andares, salas xis e ipsilones. E mais: eletrônicos objetos digitais sonhando posse. Espaços onde fucionários anemizam sorrisos tão operacionais quanto idiotas. Contas. Dívidas. Anúncios. Jornais emprestados, colhidos ao chão. Mil jogos de ilusão povoando a vida de capoeiras e laser, engolidores de fogo e vídeos, cegos instrumentistas e samplers, mímicos e robôs, pomadas vendedores japoneses e pistolas automáticas.

Deslizo entre os vagões. Desligo razões. Pulo todos os degraus da insanidade. Xingo amãe dos passantes (farsantes?). Tiro o pau para fora e exibo o obelisco do pecado a cantorias protestantes e virtuoses de fim de semana. Estou fora do controle oficial. As leis são apenas registros que me aprisionam a uma vida miserável. Não há clemência. No mundo só existe polícia.

Repentinamente, paralisam o movimento. Podam a floração de instintos e poesia. Plataformas interditadas. Portas fechadas. Agentes de segurança ordenam, mentem, latem. Agora, uma multidão de zumbis vocifera de outras submersas plataformas:

− Porrada! Porrada! Porrada!

Os zumbis perdem a hora e o emprego, não perdem o sangue alheio. Precisam de uma certa dose de distração. Enlaçam-se aos pés de seus amos. Fazem salamaleques às autoridades e elegem, periodicamente, os seus coveiros. Os zumbis são tirânicos.

Ladrão! Veado! Seu merda!

A multidão adoça os meus ouvidos. Agora, entre os braços da lei, sinto-me seguro e protegido. Recebo uma cassetada quase na nuca, mas estou inteiro. Um guarda me acerta um chute na altura dos rins. Estou imensamente feliz! Mais uma cotovelada, um tapa, um soco, um pontapé, outro tapa... Sangro abundantemente pelo nariz... Mais uma cassetada... A lei me protege... Sou um cidadão, estou transbordando sangue e felicidade... A multidão me abriga... Retoma o seu lugar... Todos recolocam-me nos trilhos... Mais...

terça-feira, 19 de junho de 2007

AFNA















Bloqueado, Helio Oiticina, 1958

AFNA

José Antônio Cavalcanti


No primeiro dia em que estive na cidade de Afna, tudo foi monótono e enfadonho porque: a) não sabia o afnês; b) a cidade parecia estar complemente abandonada.

No segundo dia em que estive na cidade de Afna, tudo foi monótono e enfadonho porque: a) ainda não sabia falar o afnês; b) a cidade continuava um inquietante ponto de interrogação.

No terceiro dia em que estive na cidade de Afna, tudo foi monótono e enfadonho. a) ainda não sabia falar afnês (embora tivesse aprendido que muito obrigado, na língua local, era tri paktu; b) a cidade permanecia um inquietante ponto de interrogação; c) além de tudo, eu era o único hóspede do único hotel, propriedade do único habitante.

No quarto dia em que estive na cidade de Afna, aconteceram tantas coisas que fui compensado, com sobras, da monotonia dos três primeiros dias. Para começar, o dono do hotel, a quem até então julgara o único habitante, revelou-me ser a cidade povoada por cerca de dois milhões de pessoas, todas, no entanto, mostravam-se receosas com os visitantes, pois há milênios Afna não recebia viajantes. Contudo, como ele narrou-me em afnês e como não entendo patavina desse idioma, não pude entender nada, razão pela qual fui altamente confuso e contraditório ao dizer que o quarto dia não foi monótono e enfadonho. Seguramente, foi o mais monótono e enfadonho, uma vez que passei as vinte e quatro horas do dia escutando o dono do hotel narrar-me a história da cidade, ou a perguntar-me donde vinha, ou a contar-me piadas, ou a falar mal do governo, ou a oferecer-me garotas de programa e cocaína...

No quinto dia em que estive na cidade de Afna, o sol foi a única novidade, porém não bastou para tirar a chatice de ruas e praças vazias.

No sexto dia, escutei um disco muito bonito, uma música que ora parecia vir de fora, ora parecia sair do meu próprio cérebro. Um fato que despertou a minha curiosidade foi ter encontrado todas as tabuletas trocadas, alterados os nomes das ruas e das casas comerciais. Alguns edifícios também foram colocados fora de lugar da noite para o dia.

No sétimo dia, amanheci mais disposto: o sete, além de ser um número místico, também é o meu número de sorte. Estava tão esplêndida a manhã que rejeitei o café, aliás, um líquido vermelho de gosto horrível, servido com cogumelos. O sétimo dia foi só para consconstar: veio e foi embora a galope.

No oitavo dia em que estive em Afna, decidi que ele não poderia ser tão enjoado quanto os outros sete. Mesmo que não aparecesse ninguém, eu iria botar pra quebrar. Causaria um alvoroço tão grande, perturbaria tanto, que, fatalmente, alguém seria obrigado a tomar uma atitude mais drástica comigo. Naquele momento ficaria grato se alguns deles me agredissem. Ao sair do hotel, quebrei vidraças e continuei destruindo tudo à minha frente até sentir um gás forte e insuportável e, creio, desmaiei.

Acordei apenas no nono dia, completamente esgotado, nauseado. Escutei o barulho dos carros na rua, os gritos de crianças indo ou vindo das escolas, as pragas e os risos de gente trabalhando, apitos de guardas-de-trânsito e ruídos de toda espécie de máquina. Todavia, estava derreado, sem forças sequer para levantar-me até a janela, embora alegre por prever, no dia seguinte, o primeiro encontro com os meus semelhantes.

Veio o décimo dia e acordei bem aliviado, fiz a barba e desci para o saguão do hotel, olhando para os lados, na tentativa de vislumbar uma pessoa qualquer. Triste recepção, apenas o dono do hotel falando sem parar. As ruas estavam tão desertas quanto nos dias anteriores. As lojas, fechadas. Ninguém. Ninguém. Ninguém. O dono do hotel disse-me que tinham saído em férias e foram para o campo e para os balneários, mas ele não poderia ter falado isso. Eu não poderia entendê-lo. Isso não passa de história de viajante.

No décimo-primeiro dia, fiz as minhas malas e tomei a direção do aeroporto, depois de dar mil e uma voltas pela cidade, graças à balbúrdia de placas e sinais de trânsito. Embarquei no avião e jurei a mim mesmo nunca mais pôr os meus pés na cidade de Afna. Antes de o avião levantar vôo, pude ver o movimento do aeroporto, o entrar e sair de pessoas, os mecânicos, os carregadores, os passageiros das outras aeronaves, os automóveis nas ruas e avenidas adjacentes...

terça-feira, 12 de junho de 2007

O CRAQUE















Ilustração de GILMAR FRAGA

O craque


José Antônio Cavalcanti

Até que eu estava jogando bem, já havia cabeceado uma bola na trave e obrigado o goleiro a realizar duas defesas magistrais. Passe de calcanhar, de letra, trivela, finta, drible de corpo: um repertório luxuoso. Fui considerado o melhor jogador durante os primeiros quarenta e cinco minutos. Alguns, mais generosos, atribuíam a resistência do outro time à truculência da zaga.

O zero a zero do primeiro tempo fora injusto para o futebol apresentado pela nossa equipe. Tínhamos de aproveitar os quinze minutos finais da partida para assegurar a nossa vitória, já que na etapa final o adversário voltara bem melhor. Foi aí que o Peninha fez um senhor lançamento. Ganhei do cabeça de área deles na corrida e driblei o quarto-zagueiro, deixando-o caído no gramado. O goleiro já estava vencido. Era só dar um toque para o canto direito. A bola já ia beijar as redes adversárias. Quando eu preparava a canhota, no entanto, apareceu um cara encostado na trave direita. Na mão do homem, como um mortal apito de um árbitro seguidor de estranhos regulamentos, uma pistola sete meia cinco inverteu a jogada. A perna tremeu. A bola passou zunindo por cima do travessão. O desgraçado, ainda com o corpanzil encostado na trave direita, guardou a arma na cintura e correu para o bolo formado por repórteres e fotógrafos.

A revolta da torcida desabou sobre a minha cabeça. O Maracanã inteiro passou a me vaiar. Torcidas organizadas e desorganizadas urravam desespero. Vozes madureiras, jacarepaguás, copacabanas, tijucas, ilhas, baixadas, todo um dicionário de xingamentos, uma sinfonia de insultos - o múltiplo canto dos excluídos, agora expulsos também da alegria redentora de um título, único bem a ser exibido e carregado pela maioria nos bares, nos becos e nas ruas da cidade.

Os jogadores do meu time começaram a me hostilizar, evitando passar a bola para mim. A zaga do outro time cismou de baixar o sarrafo nas poucas vezes em que consegui tentar algo mais ousado. O juiz aproveitou uma dividida (quase arrebentaram o meu tornozelo) e me sapecou um cartão amarelo. Os comentaristas insuflavam o ódio da massa. Um repórter, ansioso por aumentar a audiência de sua emissora, informou, com uma entonação pausada e maldosa, a minha presença, no dia anterior ao da partida, na casa do goleiro adversário, e o resultado do nosso encontro tinha ficado claro naquele lance. A torcida não perdoou: o estádio veio abaixo. Praias, favelas, subúrbios, zona norte, zona sul: todo o Rio de Janeiro explodiu: de raiva, os nossos torcedores; de prazer zombeteiro, todos os outros, entregues à explosão de contentamento, deboche, piadas, canções infames, zombarias, insultos...

O técnico retirou-me de campo, maldizendo a hora em que me tinha escalado. Fui obrigado a sair às carreiras, evitando a chuva de pedras, latas de cerveja e outros objetos despejados sobre mim das arquibancadas e da geral. Vários jornalistas tentaram me seguir na boca do túnel, querendo saber se eram verdadeiras as informações de que um dirigente do outro clube teria encarregado o goleiro de me oferecer uma vultosa quantia para evitar gols. Consegui escapulir. Tranquei-me no vestiário, suportando o olhar de desprezo do Geraldão, o roupeiro, e de outros funcionários do clube.

O jogo acabou. O time entrou no vestiário. Não perdemos; mas o empate nos eliminou da decisão do campeonato. Ninguém me dirigiu uma palavra de conforto ou esboçou a menor tentativa de crítica. O nojo e a revolta surda eram visíveis. Foram embora sem o bicho que antes consideravam no papo. Talvez o clube não pagasse os salários atrasados.

Por um rádio de pilha, ouvi um comentarista arrasar a baderna no futebol, a corrupção entre cartolas, jogadores e empresários. E eu era o pivô de tudo - símbolo da degradação do futebol. Ninguém percebera um cara encostado na trave direita me apontando uma pistola. A multidão revoltada me esperava na saída. A polícia garantia, com precariedade, a segurança da minha família, pois torcedores exaltados rondavam a minha residência e tinham até atirado pedras na minha mulher, totalmente avessa ao futebol, quando brincava com as crianças no jardim.

Minha explicação foi motivo de piada. Ninguém vira o homem com uma sete meia cinco encostado na trave direita da outra equipe. Houve riso, ironia, indignação. Tornei-me um exemplo de noitadas, bebedeiras, orgias. Seguramente, eu havia entrado sob o efeito de alguma droga em campo. Como me deixaram escapar do exame antidoping? Tudo isso, levianamente disseminado pela mídia, multiplicava o meu desespero. Como tudo pôde acontecer? Como explicar esse pesadelo? Nenhuma emissora apresentou uma imagem capaz de dar veracidade à minha história. Nenhuma foto. Nenhuma testemunha. Nenhuma pista, por mínima que fosse.

Agora vou esperar muitas horas até que os ânimos esfriem. Amanhã evitarei os amigos, não lerei os jornais. E pensar que, ainda ontem, eu era considerado uma das revelações do campeonato.

Já é madrugada e amargura. Ninguém mais no estacionamento, apenas eu e quatro pms. Não, há mais alguém. Sim, o carro de algum retardatário só agora está saindo; passa lentamente bem ao meu lado. Ao volante, o homem da sete meia cinco me manda um beijo.



segunda-feira, 11 de junho de 2007

HORA DE ALMOÇO



HORA DE ALMOÇO

José Antônio Cavalcanti

Abriram-se novas e velhas portas. Do interior dos vidros, do oco das casas, de dentro das lojas, saíram pessoas de todos os tipos. A multidão rapidamente organizou o caos. Em questão de minutos, ninguém se entendia. Todos perguntavam o que estava acontecendo, no entanto as respostas eram as mais disparatadas e enlouquecidas. Na confusão que se estabeleceu soberana, na pressa de ver o que estava ocorrendo, a massa esmagou uma senhora grávida sem ligar a mínima para os seus lancinantes gritos. Os vendedores de amendoim e camelôs ficaram em polvorosa, vendo impotentes o esfacelamento de suas mercadorias: derrubadas, pisoteadas ou, simplesmente, afanadas. O guarda de trânsito, a princípio calmo − lógico, a confusão não era com ele −, começou a irritar-se e, em dado momento, completamente fora de si, danou a apitar feito um músico louco e a sambar no meio da pista.

O amontoado humano continuava a aumentar e todos permaneciam ignorando o motivo de tamanha celeuma. Ninguém informava a ninguém o que havia colocado aquela massa ordeira e trabalhadora em tamanha balbúrdia.

Os punguistas passaram a agir livremente. Os bandos de pivetes, depois de uma rápida e objetiva reunião, estabeleceram a área de atuação de cada um, a fim de evitar atritos. Incontáveis vendedores ambulantes afluíram ao local. Pipoqueiros, sorveteiros, baleiros e outros eiros infestavam as calçadas, as ruas e as praças, provocando sérias escaramuças em torno dos pontos de venda. Até mesmo o glorioso Corpo de Bombeiros deu o ar de sua graça, comparecendo apressado e barulhento, jogando mulheres e criancinhas ao solo para logo descobrir-se desnecessário.

Do alto dos edifícios os funcionários dos escritórios acenavam eufóricos, divertindo-se a valer. Não demorou muito e começaram a jogar bolinhas de papel, sacos plásticos preenchidos com urina, rolos de papel higiênico, fora outros objetos não identificados.

A multidão que se formara ao longo daqueles quarteirões ria às escâncaras; alguns seguravam a barriga com as mãos, quase explodindo. Naturalmente, quando “acertados”, ficavam fulos, xingavam, esperneavam ensandecidos, faziam gestos obscenos.

Porém a diversão melhorou consideravelmente quando começaram a atirar gatos em cima da multidão. Em poucos minutos, não havia um só gatinho no Passeio Público ou no Campo de Santana. Os mensageiros foram expressamente encarregados de recolhê-los, o que executaram com impagável perfeição.

Fartamente municiados, os datilógrafos e auxiliares de escritório começaram a lançar os felinos dos andares superiores dos prédios. Note-se que muitos bichanos foram lamentavelmente inutilizados porque o povo, ávido por cooperar, participou também da caçada aos bichinhos, mas tal era o seu ímpeto que muitos animais ficaram divididos em pedaços na mão de caçadores inexperientes.

O espetáculo estava montado. Todos fitavam ansiosamente as minúsculas figuras movendo-se entre os retângulos das janelas. Às vezes aplaudiam freneticamente a queda espetacular de um gato, outras vezes vaiavam e assobiavam, irritados com o desperdício de um angorá caído fora do alcance do olhar ou de um gato preto se estrebuchando sobre um telhado, numa irritante recusa a cair no asfalto.

No entanto, as quedas começaram a despertar menos interesse e todos já estavam dispostos a reiniciarem suas tarefas quando um datilógrafo mais afoito resolveu subir em cima de uma antena de televisão e de lá arremessou com toda força um infeliz animalzinho. Isso foi a faísca reativadora da multidão, todos voltaram-se para o edifício de onde caíra a última vítima.

Os ocupantes de outros prédios, revoltados com a apelação do contendor, decidiram partir para a ignorância. Arranjaram escadas, arquivos, caixotes, mesas, cadeiras, e formaram verdadeiras babéis, em cujo topo um equilibrista operava prodígios. Era o delírio. Todos gritavam, batiam palmas e de todas as gargantas saíam − unânimes exclamações e elogios. E uma procissão de “ahs” e “ohs” grassou no meio do povo, fato maquiavelicamente explorado pelo partido do governo e pela oposição.

Muitos chegaram a guardar um rabinho, uma patinha, como recordação de um dia tão feliz.

O bispo de São Raimundo, ao passar pela entusiasmada localidade e contemplar a multidão tão enlevada em inocente distração, elogiou a índole pacífica e ordeira de todos e abençoou a cidade, o país, o planeta. Não fazia mais do que externar a opinião comum. Todos viviam em um terra boa, pura, bendita. Terra na qual todos conviviam em paz e harmonia, sob o olhar complacente de Deus, um deus esculpido por abnegação e sofrimento, mas muito bonzinho. Deus estava no céu, zelando por cada um dos seus amados filhos e, se bem que fosse completamente impotente para minorar nossos sofrimentos, era um velhinho cordato e incapaz de praticar uma má ação. Era o diabo quem fomentava a revolta no seio da população, incitando-a à desordem, jogando irmãos contra irmãos. Trabalho vão. No país, apesar de propagandas mentirosas, tudo era diferente: oásis, paraíso, Eldorado, nirvana.

No auge da festa, no momento em que todos participavam com maior intensidade, em emocionante ato de solidariedade e comunhão de aspirações e interesses, as infernais sirenas começaram a azucrinar os tímpanos das pessoas. Num piscar de olhos, a brincadeira cessou. Os homens e as mulheres reorganizaram o centro nervoso da cidade: recolheram os objetos espalhados pelas ruas; lavaram o sangue sobre o asfalto e as calçadas; refizeram a ordem e a limpeza em menos de dez minutos. Depois, cada um encaminhou-se silenciosamente para o seu trabalho, em passos largos e pesados, com as faces voltadas para o chão. Os policiais chegaram aos montes e começaram a colocar os eventuais vagabundos fora de circulação.

A vida voltou ao normal. Os neguinhos, a vender amendoim, tornaram a correr da polícia. Nas lojas, nos escritórios, nas fábricas, enfim, em todo lugar onde houvesse produção, trabalho, as pessoas desempenhavam com perícia as suas funções. Tudo na mais perfeita organização e na santa paz do senhor.

As autoridades ocuparam as esquinas, as praças, as ruas, as avenidas, as lojas, os escritórios, as fábricas, os colégios, os hospitais, os ônibus − em qualquer lugar sempre existia um representante da lei. Estava mesmo em votação no Congresso uma lei autorizando a presença de um policial em cada lar, a fim de fiscalizar as atividades domésticas de cada família. Tal lei, caso aprovada, estenderia aos encarregados da manutenção do sistema o direito de permanecer a um canto do quarto quando o casal mantivesse relações sexuais.

Mas isso não é motivo de grande preocupação para todos. Afinal, sábado, à noite, em todas as quadras de escola de samba haverá milhares de indivíduos felizes e satisfeitos à semelhança de outros milhares de pessoas em puro êxtase com as anestesiantes jogadas dos deuses da bola.

ESTORINHA INOCENTE II















O BEIJO, RUBEM GERSCHMAN

ESTORINHA INOCENTE II

José Antônio Cavalcanti

A perseguição do anjo prosseguia demoníaca. O homem já se encontrava encurralado no último beco da cidade. O anjo perseguia, implacável e atemorizador. O homem já não cabia no último beco da cidade, porém o anjo preenchia todo o espaço. Havia partes do anjo pela infância e a recordação de um domingo num parque de diversões, onde o anjo sorria candidamente numa roda-gigante.

A perseguição do anjo prosseguia demoníaca. O volks do homem não ganhava distância do opala do anjo. Na avenida Brasil, quase é alcançado pelo opala. Conseguiu ganhar terreno no túnel Rebouças. O anjo ficou intimidado com as entranhas da terra, na certa. Na lagoa Rodrigo de Freitas, o anjo ultrapassou o volks aflito que derrapou três vezes e cuspiu o motorista sobre/sob o lodo e os peixes mortos da lagoa.

O homem não morreu. O anjo não desistiu. Abriu a blusa e exibiu-lhe os seios. Escorregou as mãos pequeninas pelo dorso do homem, pelo tórax, pelo abdômen, até alcançar o pênis angustiado. Depois disso, o homem não tentou escapulir de novo, nem era possível; o anjo já havia amputado as suas pernas e transformado o seu rosto num espelho de prazeres onde o céu e o inferno coabitavam.

ESTORINHA INOCENTE














Nu com vaso, Enrico Bianco

ESTORINHA INOCENTE

José Antônio Cavalcanti


Havia um homem dentro do bule e uma xícara vazia. O homem não cabia no bule e o vazio da xícara não a preenchia. Entre o homem dentro do bule e a xícara vazia existia um túnel escuro, ou existia um caminho bem claro. O homem no interior do bule explodia e a xícara vazia se esvaía na sede que não se sacia. E, puta que pariu, o homem no bule vazio possuía a força de gostar da xícara que não existia no homem que a continha. Eis que, súbito, a primeira porta do paraíso mergulha macia em seu muro e a língua da lua apreende a clareza do dia, enquanto o homem dentro do bule não suporta a sangria. A xícara julga o homem dentro do bule: rotula, desentende, reclama do homem dentro do bule a existência do homem do bule; imagina a sua única asa capaz de sustentar o seu vôo até o céu do pra- zer nos lábios do homem do bule. O homem do bule percebe a revolta e nada faz para resolvê-la, dando espaço ao vazio da xícara justificar-se vazio. O bule dentro do homem dentro da xícara vazia não é jesuíta para evitar pecado ou transgressão à lei, recusa a resolução de qualquer problema e deseja do fundo do coração que a xícara vazia se encha de café, cachaça ou qualquer porcaria. O homem que havia dentro do bule é suficientemente puto para manchar a toalha, estragar a festa e saltar no escuro. A vazia exigência de uma perfeição que atenda a todas as vontades, maus humores, brigas com família e questões ao estilo “a minha vida é uma merda” aumentam o vazio da xícara. O homem dentro do bule permanecerá vivo, sempre, apesar da rebeldia da xícara vazia e do vazio da xícara vazia. E, apesar desta ridícula alegoria, mesmo o homem dentro do bule, contra a própria xícara vazia, cul- tivará um imenso querer, um honesto gostar, do homem do bule vazio pela xícara vazia dentro do bule vazio do homem explodindo o bule.

HEMATOMA





















A mulher que chora, Picasso

HEMATOMA

José Antônio Cavalcanti

Não, isso não vai ficar assim. Ele vai ver só. Babaca! Frouxo! Na cama que é bom mesmo, não consegue dar conta do recado. Sempre com sono, cansado ou bêbado como um porco. Rola as banhas prum lado e pro outro e principia a roncar forte e animalesco. Fim de semana inventa mil desculpas: é uma ida a São Paulo, um batizado lá em Piabetá, um casamento em Vila Rosali. Está sempre me evitando, fugindo, distante. Ah, mas ele me paga, juro por tudo que me é sagrado que esse banana vai se arrepender... Acho que está enlouquecendo. Só pode ser isso. Ontem o maluco investiu possesso contra mim, dando murros e pontapés, gritando, quebrando as coisas... Covardão! Eu queria apenas brincar de ilusão – tonta que sou. Hoje dormir com ele num mesmo leito é um ato de sacrifício. Não aturo mais o amontoado de adiposidades gemendo e babando sobre mim, sentir seu hálito de cachaça e fracasso. Difícil enxergar um homem por trás daqueles trapos. Impotente, gilete! Já não gozamos, sofremos o prazer irrealizado, e a vida... Que merda! Logo no dia do aniversário da Lena. Preciso disfarçar essa marca roxa no rosto. O estúpido rasgou até o vestido que me presenteou para que fosse estreado na festinha. Eu preciso ir, porém, assim, acho que não vou agradar muito. A Lena é tão boazinha. O marido dela é que é bacana. Não é igual a esse paspalho que aperreia a minha vida. O sem-vergonha outro dia telefonou pra mim. Gostoso. Já o senti, no hall do elevador, me comendo com os olhos. Fiquei meio constrangida porque a Lena estava falando comigo e senti um alarme no olhar dela, mas bem que fiquei satisfeita. Onde está o outro vestido?... Não, esse é horrível. Já desfilou por todas as festas nos últimos dois anos. Acho melhor transar um ar esportivo. Assim, óculos, meias berrantes, bermuda... Não sei... Hum... O marido da Lena ganha muito bem; além de motorizado, não é nenhum unha-de-fome igual ao besta do Arnaldo. A Lena nunca anda reclamando. Filho da puta do Arnaldo: me bater ainda vai, mas rasgar o meu melhor vestido. Se pelo menos não tivesse ficado a marca. Nas coxas, tudo bem, ninguém vê, mas o hematoma aqui no olho é fogo. Se o marido da Lena visse costas e coxas ostentando sinais de pancadas, o que pensaria de mim? Preciso disfarçar. Espero que o Arnaldo hoje não dê a louca de chegar mais cedo. Ele é meio maníaco. Acho que todo funcionário público chefe de seção é meio doido. A Lena é uma pessoa tão agradável. Só é muito sacana. Como é que ela descobriu que a Solange adora mulheres? Mas a Solange, logo ela... tão quietinha. Que absurdo! A Lena perguntou se eu topava fazer uma experiência com ela e a Solange. Que idéia! Fiquei sem graça, mas ela acha que só tem coragem se formos juntas. Hoje, na festa, digo sim. Puxa! Estou ficando muito liberada. Acho que estou me atrasando. Esse hematoma desgraçado. Arnaldo é um grosso. Trata as mulheres como objetos. Vai ver me confunde com os arquivos, cartões de ponto, máquinas e carimbos da sua repartição. Homem é assim mesmo: roupa lavada, passada, comidinha no tempero exato, uma babá pros filhos, uma cadelinha pra cama – eis a esposa modelo. Arnaldo é um merda. O marido da Lena não. É, nem todos os homens são iguais. O marido da Lena tem o maior tesão por mim. Preciso ir bem charmosa. Tenho que fazer presença. Ah! essa coisa asquerosa enfeando o meu rosto. Arnaldo é um grosso. A Márcia é que é esperta. Outro dia me deu um sermão: não sei aproveitar a vida, tenho só vinte e oito anos, meu corpo é jóia, sou muito medrosa. O marido da Lena tem um monza cinza metálico e trabalha numa gravadora. Puxa! deve conhecer muitos artistas. Desconfio que o Arnaldo está brocha. Pronto: agora só falta encobrir o ferimento. Arnaldo é mesmo um grosso. Não sei como ainda vivemos juntos. Oito anos de hiprocrisia e conveniências... oito anos... Foi na Igreja de Santa Margarida, meu velho sonho. Que merda! O Arnaldo tem um relacionamento tão estranho com o Ângelo. São tão ligadinhos que dá até para desconfiar. Eu, hein, veado! Ele me paga! Será que esqueci a chave na gaveta da cômoda? Tenho que dar um jeitinho de marcar um encontro com o marido da Lena. Ele é tão gostoso. A Lena é tão boazinha. Arnaldo é um animal... Eu só queria acreditar que ainda estávamos vivos... Ih! Já são dez e meia.