segunda-feira, 16 de julho de 2007

JOAQUIM PALHARES, 308, SOBRADO, ESTÁCIO



JOAQUIM PALHARES, 308, SOBRADO, ESTÁCIO

Um samba-narrativo de José Antônio Cavalcanti

A casa estava abandonada como uma cidade fantasma. Janelas abertas e olhos insones desmontavam arcanos e reminiscências. Pés e mãos perfurados por cigarros acesos e pregos enferrujados sustentavam um corpo crucificado na sala de jantar, antes do almoço. A casa estava vazia e supensa no ar, depois do despejo, do choro, da revolta de seus moradores e do peso de sua velha mobília terem descido degraus perplexos e inseguros. Pano de prato não serve para suicídio e a vida no presídio não vale o pavor na face lívida do oficial de justiça. Então, desocupar, fugir, recolher as cicatrizes e as rachaduras dessas paredes úmidas. Última flor do Estácio. Poiésis e veneno. Laço no pescoço. Dívidas e dívidas. Cintilação de estrelas sombrias em inolvidável segunda-feira, dez de fevereiro de mil novecentos e setenta e cinco. A casa completamente deserta, trincheira sem defensores, isolada numa esquina vadia, longe dos gritos de crianças medrosas fugindo por seus corredores longos e escuros, pasto de tímidas assombrações; longe do gozo de seus homens e mulheres brincando de pecado e perigo nas dobras de um tempo sombrio. Só o cheiro de álcool e suor, ainda entranhado em seu ventre, denunciava extintas primaveras de prazeres e testemunhava em silêncio uma época em que a noite adormecia a raiva e o ressentimento represados durante o dia. Joaquim Palhares, 308, sobrado, Estácio. As incontáveis batalhas travadas na calçada, na escada, no porão, nos quartos, converteram-se no martelar de um bate-estacas, no movimento ritmado e impiedoso de operários e betoneiras, metamorfoseando o passado em escombros, decompondo, tijolo a tijolo, esse pequeno universo desprovido de tamanho. Os fornos crematórios do progresso apagarão vestígios de porres e danças no lugar sagrado da tribo. Ultraje. Heresia. O assoalho não beijará os passos de seus bêbados incorrigíveis. A alegria delirante e boêmia de sua malandragem cederá vez e lugar à pose elegante de uma desumanidade, a um mundo arrumadinho, obediente a códigos de funcionalidade e indiferença, dominado por zelosos e eficientes gerentes de imagens, simulações, conveniências, vento. A polícia poderá fechar o livro de ocorrências, liberta do constante vaivém a pedido da seleta vizinhança. O trezentos e oito riscado em cruz. O estigma dos condenados. A marca sinistra dos inimigos da fé. Resta a Santa Inquisição, os jagunços do Tesouro Nacional, os engenheiros da Construção Perfeita, todos caírem sobre sua carcaça e como gralhas devorarem a pequena margem de pânico e lucidez dentro dos seus múltiplos olhos atônitos. A demolição move-se com pés mercuriais. Um sobrevivente perambulava pelas maltratadas dependências do sobrado, levando um espelho quebrado para não esquecer o próprio rosto saturnino e guardar bem viva a expressão de mágoa da casa adormecida. A casa tão dentro, tão no interior de tudo, tão só. Morcegos, ratos, aranhas, escorpiões, baratas, descargas quebradas, torneiras enguiçadas, fechaduras defeituosas, vidas perdidas. A casa furiosa com o trágico destino, batendo portas e janelas, desafiando a eficácia de máquinas e dos especialistas em demolição, ameaçando despencar do seu instável equilíbrio a qualquer momento e vingar-se de sua condenação. Tão gelada quanto as cervejas que, em dias de gala, recriavam o milagre da multiplicação do pão e do vinho. Pintada de branco, realçava a sujeira a formar estranhos desenhos em sua pele acinzentada. Um branco cor de ausência. Um branco que esgotara toda a sua alvura ao doá-la, generoso e cúmplice, a todos os momentos de nossas vidas. A casa, agora, reduzida a completo desamparo, repelia qualquer tentativa de contato, tolhia a imaginação e se furtava a um entendimento. A magia da casa não ocultava, entretanto, sua natureza labiríntica, os meandros onde as perdas e os pesadelos armazenavam-se, emudecidos. Joaquim Palhares, 308, sobrado, Estácio. Estacionauta invade a contramão e tropeça em pedaços de conversas, fragmentos de beijos e carícias, migalhas de sonhos, misturados ao tinir de copos, ao chiar das panelas, ao escorrer de águas em tanques exaustos. Sente o ruflar de asas inamistosas sobre a cabeça anelante. Ameaça de represália. Estacionave incapaz de inaugurar a sua trajetória, presa ao chão da memória de maneira irremediável. Estacionave ancorada no porto intergalático da América: América dos molambos, América das trapaças, lúmpen-América. Porto aberto aos flibusteiros, cruéis aventureiros, caçadores de índios, capitães do mato, bandeirantes em busca de tesouros, bandidos de todas as latitudes. Porto aberto a todos ansiosos por explorar teus meninos, tuas mulheres, tuas jazidas, tuas safras, tuas matas. Todos no mesmo barco. A solidariedade dos oprimidos forma um cordão protetor ao redor de cada um. A casa – apenas refúgio e esconderijo. Joaquim Palhares, 308, sobrado, Estácio. O cupim corroendo o madeirame. O jogo do bicho sempre a renovar expectativas de soluções miraculosas. A saga coletiva. Carlinhos, malandro e miserável, roubando bicicletas. Isaura, trabalhando todas as possibilidades do corpo. Henrique, ao volante de caminhões de cimento, dirigindo como um possesso a fome da família. Neca, bancando polícia, impondo respeito com pernas de capoeira, dando uma de xerife nos botequins adjacentes. Rita, sósia mal acabada de Ícaro, cujo salto suicida deixou-a viva, porém incrustou ao seu corpo um andar torto como o de um anjo exilado, sob o peso eterno da morte da filha de seis meses na queda. Cristina, sempre esgueirando-se furtiva meia hora após a saída do marido para ver se recuperava com o seu viço e juventude o salário que ele gastava com bebida. Leila, a tonta, a sem juízo, que, enfurecida pelo fato de o marido ter esgotado o seu corpo e procurado novos tesouros em outros braços, perseguia garotos bonitos às carreiras pela rua, de camisola e sem dentes. Betinho, sem tempo e sem condições para tornar-se homem. Manéu, que alugava cômodos de um imóvel que não lhe pertencia, enquanto aguardava a redentora proposta de alguma viúva rica. Getúlio, assassino de outro homem num caso equivocado de amor e traição e agora a beber arrependimento, olhando fixamente numa foto antiga o seu sorriso ladeado pelas faces felizes da mulher e do irmão. Mauro, que descera as escadas com o auxílio de todos os moradores, marejado de lágrimas e súplicas, a caminho do Hospital de Engenho de Dentro, onde a morte o esperava entre choques e terapias homicidas. Moisés, que morreu num grande porre, depois de armar o último balão apagado. Luis Carlos, cujas mãos desferiram seis facadas no padrasto e os pés fugiram para Santa Catarina, para o corpo morrer afogado aos vinte e quatro anos de idade. Tiana, fugitiva do São Carlos, incapaz de explicar a pressa e o isolamento. Negão, que encarava qualquer barulho, desacatava polícia e, vez ou outra, hospedava-se por conta do estado. Marquinhos, empurrando carrinho de rolemã nas feiras, lavando carros e fazendo ganhos para assistir a bangue-bangues nos poeiras. Todos, agora, espalhados pelos sete cantos da cidade, sobrevivem na periferia da Babilônia, em terras de assaltos diários, ruas de lama e esgoto, sem luz, sem conforto, sem saída. Gado levado para engorda. Os caros filhos da pátria, da terra gentil, da cidade maravilhosa, do eterno berço esplêndido. Os habitantes da res publica, perfilados no paredão cinza dos dias, prestes a sucumbir perante polícia, autoridades, governantes, doutores, líderes carismáticos, fiscais da agonia, mascates do sofrimento humano, formam alas avessas às carnavalescas. A casa guarda sua tragicidade em folhas negras, adormecidas no sótão. A casa contaminada. A casa condenada. A casa suspeita. A casa mal-assombrada. A casa apenas casa: lugar de comer e dormir, amar e sofrer. Pôsteres e retratos como medalhas disseminadas pelas paredes enrugadas e tristes, acumulando camadas de gerações como se fossem pinturas sobrepostas. Estacionauta num mar que não dá livre curso ao seu calado, nem suporta a tonelagem de glórias e infâmias. O velho encouraçado desmanchou-se com o calor, a pressão do progresso, a especulação imobiliária, desviou-se do caminho previsto e adotou a rota das grandes fugas. Sinal de alarme: rombo no casco, botes de emergência, grades cerradas, lençóis amarrados um a um, uma pistola sete meia cinco na cintura. A casa sangrando pelas frestas do telhado. A água lavando mansamente os palavrões e as inscrições apaixonadas espalhadas pelas linhas tortas do seu corpo descascado e pulsante. Henrique é morto. Leila sumiu. Getúlio foi morar em Anápolis. Isaura vive com um alto funcionário do Banco do Brasil e não quer mais saber de ninguém. Sobra apenas a interminável fila do banheiro, as brigas, o desencontro total de vozes, pessoas e sentimentos. Resta o olfato descobrindo carne assada, peixe com coco, galinha ao molho pardo ou feijoada, em dias de aniversário, de batizado, de casamento, de milhar na cabeça. Resta a festa diuturna das crianças, importunando os infelizes, desorientando as regras estabelecidas, inventando a esperança em cada gesto, a cada minuto. Resta a dor e o desemprego, a falta de frutas e verduras; a expressão de espanto dos filhos, perguntando, inconformados, por balas e doces. Resta o amor sem perguntas a instalar-se sobre si mesmo, sem precisar recorrer a explicações ou justificativas, pois amadurece subterraneamente e quando aflora vem, caudaloso e irrefreável, arrastar reservas e resistências, ligar destinos, abalar antigas paixões, inverter valores, descobrir o véu de automatismo sobre o cerne da existência – forte, denso, inexaurível. Estacionauta, o último sobrevivente. Na impossibilidade definitiva de sustar a demolição, levou a casa no interior dos olhos: sugou as vigas e os tijolos; absorveu os tacos e as telhas. Estacionauta através do espaço, guiado por espelhos mágicos e cometas suicidas. Estacionave a preencher a memória do estacionáufrago. Joaquim Palhares, 308, sobrado, Estácio. Velhice. Decadência. Aposentados jogando baralho, dama, xadrez. Peladas no meio da rua. Princípio do mundo. Pipa cortando macia o azul dos domingos. A novela das oito desunindo e domesticando a família. O pau comendo solto no final dos bailes. A casa. A presença da casa nas mangas da camisa. A casa. A linguagem das cartas na caligrafia da casa. A casa vazia. A vida extirpada violentamente da insegurança da casa. Vazia a caixa do coração. Covil. Pardieiro. A casa vazia e forte. A casa vazia e forte. A casa vazia e forte.

segunda-feira, 9 de julho de 2007

ANIVERSÁRIO











Três músicos, Clóvis Graciano


ANIVERSÁRIO

Mais duas, pensou. O apartamento repleto de ruídos, abria-se a um corre-corre insuportável. Corpos misturados anexaram o corredor e as escadas à sala apertada e insatisfeita. Mãos esvoaçavam ágeis, aumentando o espaço, dissimulando, velozes e vorazes. Crianças modelos, problemas, prodígios, bonitas, doentes, honra e vergonha dos pais, meus filhinhos e minhas filhinhas, queridinhos, gracinhas, levados, coisinhas doces, capetinhas, ingratos, anjos barulhentos e desdentados apunhalavam olhares sequiosos no bolo e seus cúmplices.

Medo de fotografia. Medo dos pais. Medo.

O apartamento confeitado, transformado em vitrina, mostra das virtudes familiares. Trabalho e beleza pendurados nas paredes, no teto, no peito orgulhoso dos pais da aniversariante – bichinho murcho, assustado em cima de um banco, estonteado pelas gargalhadas riscando o ar da sala, pela música ensurdecedora, pelo atropelo. Parada, desaprendendo palavras, era uma boneca trabalhada em laços e rendas, vestida em nuvens povoadas de animaizinhos mimosos; uma princesa fotografada em torre medieval.

As paredes elásticas incorporavam novos contingentes de parabéns e presentes. Trovões esganiçados desequilibravam-se em lábios maternos alvejando ordem e respeito (respeito?). Inútil. O chão engolia bombas e brigadeiros destroçados, guaraná, glacê, cerveja, fora o bate-pé da pirraça. Gritos e exclamações transbordavam, manchando a mobília de espanto.

Três anos. A aniversariante, à margem da comemoração, contemplava desanimada pequenos embrulhos em papel colorido, coroados com laços de cores vivas. Três anos. O pai sumira no meio de bandejas, copos e garrafas. A mãe trafegava afoitamente entre os convidados. A vó cozinhava-se ao forno. Três anos. Nos seus ouvidos ressoavam “meu filho é isso, meu filho é aquilo”. Palavras misteriosas – balé, judô, natação, piano, inglês, informática – eram pespegadas às crianças, ampliando-lhes o ser. Assemelhavam-se a crachás, marcas registradas de prosperidade. Pompa e circunstância. Campeonato carnavalesco de maravilhas e virtudes: o filho mais alto, o filho mais gordo, a filha mais inteligente, o mais rápido, o que mija mais longe, o que cospe mais alto... Três anos. A aniversariante assustada com o mundo. Num canto murmuravam algo a seu respeito: “ –Coitada! Não cresceu nada!” Noutra rodinha achavam o bolo de mau gosto e os doces mal feitos. Alguém recordava outro aniversário com buffet, palhaços e uma bandinha. Três anos. A aniversariante é um confeito a ser devorado. Todos os olhos cravados na transparência do seu rosto; setas do mundo a desvendar-lhe a natureza humana. A garotinha vislumbrava nesgas de carinho, fiapos de ternura tremulando no meio da festa. Transitava leveza por colos e colos, luminosa e fluida. Galgava pernas desconhecidas. Ganhava beijos imprevistos e beijos programados. Elogios ensaiados, forçados, sinceros. Afagos espontâneos ou formais. não compreendia que a festa não lhe pertencia.

Mais duas, pensou. Onde caberiam? O apartamento apinhado de gente, um calor insuportável, uma música infantil enfadonha, uma zona. Ao seu lado uma mulher berrava:
“– Cláudio! Clááááudio!!”, enquanto a espuma derramava-se pela estante. A mulher bebeu um gole, apertou a orelha do filho, torceu-a com toda a força, tomou outro gole, e largou o Cláudio, trocando a sua orelha por um salgadinho.

Mais três. Não. Tinham saído e voltado. Melhor desistir daquele improfícuo exercício. Sentiu a mãe do Cláudio olhar fixo nos seus olhos. Abaixou-se para cochichar algo com o filho, aproveitando o momento para ampliar o decote, desprotegendo seios morenos e maduros. Sorriu para ele, vulgar e acessível, as formas um tanto excessivas, talvez. Mas, ainda assim, era uma mulher encantadora. O filho escapulira para uma brincadeira de super-heróis. Ela olhou-o de soslaio, promissora.

O pai da aniversariante, muito mais ocupado num minucioso estudo de líquidos liberadores, brigava com a máquina fotográfica, realizando a proeza de estragar quase todas as fotos, podando grandes áreas da filha, decepando cabeças, descobrindo ângulos inéditos e climas irretratáveis. Só a mãe esfalfava-se em vão, ao perceber o desconforto da filha, doida para tudo acabar logo. Por isso, certamente, apressou os parabéns.

O ritual foi exemplar. A massa compacta dos convidados ao redor da mesa. As crianças dando cotoveladas e pisando umas nas outras, impacientes. Os pais de olho no bolo, na aniversariante, vigiando-se. Vela acesa, luz apagada, cantoria, alegria geral. Uma, duas, três vezes. Em cada apagar das luzes, a mãe do Cláudio e ele bem juntinhos, roçando-se.

Livre das obrigações paternas, distribuídos doces e bolos, recolhidos os presentes, o aniversário começou. A hedionda música infantil substituída por uma execrável canção deamor, a mãe do Cláudio chegou-se toda para ele, morna e viscosa, abrindo um leque de ardis e fingimento. Ele, no entanto, observava uma coleção mal conservada de José de Alencar, distraído e bêbado. Não recusava mais nenhum copo, bebia mecanicamente, vendo a aniversariante brincar com outras meninas, dona de uma alegria inimaginável momentos atrás. Olhava-a como quem examina atentamente um quadro que jamais pintará, uma mulher que jamais possuirá, um emprego que nunca será seu. Teria feito igual? Afogado a sua casa de parentes e amigos, estrangulado o prazer, sufocado a vontade de correr, pular, cantar, entulhado cadeiras e sofá de mexericos, futricas de candidatos a pai do ano, mãe exemplar, déspotas impiedosos dos filhos? Talvez. Não, não era juiz, nem podia... Privado de descobrir, restava-lhe morder um quibe e entornar cerveja na roupa, pensando no que fazer com a mulher ao lado.

– Você é amigo do Célio?

A pergunta perturbou-o. Célio? Que Célio? Não conhecia ninguém com aquele nome, entretanto, talvez fosse o pai da aniversariante.

Ela gozou o seu constrangimento, comprazendo-se com a sua vantagem. Falsamente alarmada, golpeou-o mais forte:

– Não vá me dizer que não conhece o Célio?!

Claro, já percebera o jogo, a trama primária a revelar-lhe trabalho de amadora. Resolvera aceitar regras viciadas e adaptar-se mansamente, guardando o seu veneno para lances certeiros e mortais. Evitou encará-la quando, diante do seu ar surpreso, ela sorriu triunfante e segredou-lhe, tocando de leve as suas orelhas com lábios sedentos de gozo:

– Célio é o pai da Dinah, a aniversariante.

Em vão esperou explicações. Ele manteve-se nirvânico, desventrando a família pendurada na parede. Imaginando-se chefe de família, pai, marido, feitor de sonhos e destinos. Daria tudo para estrangular a mulher intrometida, pegajosa, crivando-o de perguntas idiotas. Queria lá saber de Célio! Mirou-a feroz e respondeu com mansidão:

– Não conheço nenhum Célio, nenhuma Dinah, ninguém. Para ser sincero sequer me conheço. Ninguém conhece ninguém. Não conheço você. Você não me conhece. Não existe nenhum conhecimento.

Ela tirou outro salgadinho de uma bandeja semideserta. Mordeu-o cheia de glamour, ajeitando com a mão esquerda a alça do soutien. Riu tranqüila e satisfeita. Aquela conversa prometia muito. Encostou-se nele e falou baixinho:

– Penetra! Hein... Pensa que me engana, seu malandrinho. Penetra!

Suas palavras recendiam cumplicidade. Uma cumplicidade longa, morena e igual em todas as sílabas. O corpo prolongava a entonação daquelas palavras, ampliando-lhes o sentido, abrindo e travando promessas. Uma cumplicidade sem complacência: exigente, autoritária, possessiva.

Àquela hora a maioria das crianças já havia sido despachada. Algumas, todavia, permaneciam ativas, esquecidas de sono e cansaço. Não obstante, a festa transformara-se num círculo imenso, no qual feixes de energia interligavam os seres. Conversas cifradas, piadas, casos, façanhas, cantadas, feitos e fatos regados à batida, vinho, cerveja ou cachaça faziam do pequeno apartamento uma encruzilhada, ponto de tangência onde almas peregrinas, egressas do tédio e da desesperança, cruzavam e descruzavam caminhos. E isso acendia frações de resistência. Ainda que os encontros fossem construções de descompassos e incertezas. Mesmo que as pessoas se encontrassem apenas para um duelo, uma esgrima de misérias e ausência. Um ponto onde se projetava uma arquitetura de conflitos, prenúncio de inevitável solidão.

– Você está redondamente enganada. Não sou penetra. Apenas estou aqui. Mas não ingressei. Estou fora, entende? Estou aqui e estou fora.

– Bancando o filósofo, hein... Malandrinho! Você , para quem não está, bebeu um pouquinho, né? Por favor, não fique zangado. Não me interprete mal. Para mim você está aqui e isso é o que importa. Nós dois estamos, conversamos, nos divertimos aqui e agora. Nós nos encontramos. Isso não é maravilhoso?

– Maravilhoso? Mas eu nem sei o seu nome. Não, absolutamente, não nos encontramos, apenas nos enganamos. Não conversamos encadeamos sons desordenados, ilógicos, providos de farpas, cadeia ilusória de sentidos. Presos a graus cada vez maiores de cegueira, circulamos vazios e atados aos grilhões de frases desconexas, absurdamente prolixos e pedantes. Bebemos, comemos; sequer nos divertimos.

Ela procurou o Cláudio com olhos desatentos. Rápida e faceira, atrapalhava-o. Provocante e fácil, deixava-o desarmado, escravizado a uma psicologia livresca e protocolar, a enquadrar personalidades em tipos humanos, despercebido do rio caudaloso da existência, fértil em descobertas e diferenças. A imprevista capacidade de absorção criava-lhe embaraços. Definitivamente, vulgaridade revelava-se tão-somente sinônimo de algo imponderável, indefinível. Étimo modificado por um lodo deformador, filtro de olhos decadentes, alfinetando rótulos, provando juízos e valores nas pessoas à revelia de vítimas e ciência. Deselegante e atabalhoada, vista num relance, exorbitava fronteiras de compreensão, minava certezas.

Irresoluto e desconcertado, ele segurava com dificuldade um copo cheio de vinho há mais de meia hora, escorando uma parede oscilante. Achava que a aniversariante pendurada na parede poderia trazer a assinatura de Rubens. O fotógrafo caprichara. Talvez a mãe houvesse gasto vinte e quatro horas para arrumar os cachos, o vestidinho branco com rendas azuis. Fitinhas. A posição certa. O ar certo. O olhar certo. A luz. O ambiente. O tamanho. O preço.

– Tentando me enrolar, hein... seu malandrinho! Vai ver que você não é nem penetra. Então não somos nada, nada valemos, mas você bebe, come, conversa. Só não existe. Ou será que a bebida tem a capacidade de torná-lo vazio? Há pessoas que gostam de posar de vazias. Constroem-se vítimas, alvos eternos da infelicidade e da angústia. Algumas buscam até fundamentos, lêem livros complicadíssimos, conhecem teorias da dor e do sofrimento, forjando explicações esfarrapadas para males inexistentes. Vazio não é quem se esvazia? Isso não é ser vítima do próprio crime?

Como é que ela podia conciliar tanto, abrir-se banal e invulgar. Droga. Mais um malandrinho daqueles, salivoso, e perderia a cabeça. Tornou-se mais fechado, impermeável. As pessoas oscilavam bojudas e graves. A aniversariante fazia oitenta anos. O pai fotografara animais em extinção num baile sem dança, sem máscara, sem motivo. Não podia aceitar acusações. Ela investia-se de poderes divinos. Grosseira e leviana, tentava incriminá-lo, recitando um discurso de assistente social de baixo calibre. Lutava por derrubá-lo rapidamente, colocando suas idéias no terreno do subproduto alcoólico. Ágil fêmea morena, senhora de formas em molde de cobiça. Morna matrona, tepidez do desejo nascendo irrefreável. Aranha pequena colhendo em teia tão frágil uma construção sem vigas, sem alicerces. Animal vulgar enxameando a cabeça de milhares de malandrinhos repugnantes, qualificativos lançados a um mar sem fundo. Ele segurava um copo inexplicavelmente cheio de vinho vagabundo. Agarrara-se a uma vagabunda, mãe de um vagabundinho, numa festa vagabunda, numa vida vagabunda. Não, não estava tonto. O vinho não poderia derrubá-lo. Um penetra nunca é derrubado, apenas enxotado pela família, pelos amigos da casa, pelos outros penetras. Ouvia o ritmo nervoso da música. Percebia os movimentos rápidos de dançarinos improvisados. Insuportáveis, agora, eram aqueles olhos tépidos injetando sobressaltos na sua alma. A proximidade de carnes. O contato de peles. O entrecruzar de hálitos. Dedos tocando-se mágicos.

Ela gritara Cláudio bem alto. O garoto veio cabisbaixo, sonolento. Segurou o filho no colo, depois de limpar a boca com um guardanapo de papel e de tomar o último gole. Imponente e fútil, esperou pacientemente por ele. Percorreu todo o seu corpo com os olhos ansiosos. O filho pesava muito em braços enfraquecidos. A festa era algo distante, sem qualquer ligação com ela. Um rumor de vozes do outro lado do planeta Terra. Uma aldeia perdida numa selva comemorando ritos milenares: o plantio e a colheita, a fecundidade da terra, a perpetuidade da vida. A festa era um simples penetra em quem gostaria de abrigar o seu corpo, incrustar os seus pensamentos. Mas ele armava muros. Repelira com palavras veementes aquilo que afirmava com olhos de cão faminto. E agora, desguarnecida de trunfos, empunhava espadas no olhar, ameaçadora, terrível. Despojada de lógicas e razões, concentrava-se toda em seus contornos, densa, repleta, transbordante.

Ele perdia todas as folhas com a ventania soprando forte e inflexível. A lacuna dentro dos seus atos não se extinguiria. O vazio não bateria em retirada. A dor e a solidão permaneceriam acesas. Nenhuma comunicação. Nenhuma mensagem. Nenhum chamado o salvaria.

– Vamos?

A pergunta tirou-o daquela zona de turbulência, clareando a sala e as pessoas. Tomou-lhe o filho e carregou-o cuidadosamente. Uma gosma escorreu por seu ombro direito. Sentira o tênis emplastrado de doces. Suava. A quentura daquele corpinho molhava a sua camisa.

Quando entraram no elevador, ele observou que ela tinha as mãos ocupadas; pratinhoscom doces, bolo e salgados equilibravam-se como por encanto. Ela fitou-o gulosa e ordenou-lhe:

– Quinto andar.